quinta-feira, 5 de abril de 2012

Corrida Sagrada com as bençãos de Oxalá

Igreja do sr. do Bonfim

As fitinhas do Bonfim, amarradas nas grades da Igreja


As fitinhas do Bonfim

A largada da Corrida Sagrada, com a Igreja da Conceição da Praia à esquerda

A Lavagem do Bonfim acontece todos os anos na segunda quinta-feira de Janeiro. A festa tem origem lá no século XVII. Um ritual que mistura o sagrado e o profano e celebra o sincretismo religioso tão típico de Salvador, capital da Bahia. Baianas vestidas de branco, com suas imensas saias, jarros com flores e águas de cheiro na cabeça e vassouras saem em cortejo reverenciando Oxalá, entidade do Candomblé, até a Igreja do Bonfim, Católica, onde lavam suas escadarias.

Antes do cortejo sair acontece uma coisa muito bacana: a Corrida Sagrada. Corredores percorrem 6,5 km saindo às 07:30 da manhã. Este ano corri pela primeira vez. Durante o percurso passamos por alguns símbolos da cidade como por exemplo a Igreja da Conceição da Praia (construida no século XVII, com estilo gótico, por determinação de Tomé de Souza.), onde acontece a largada.

Observei os participantes: pessoas felizes, animadas, alongando, aquecendo, confraternizando, indo buscar as bençãos do Sr. Bonfim. Começa a corrida e logo passamos pelo Elevador Lacerda (o elevador liga a Cidade Baixa a Cidade Alta. Tem este nome por causa do engenheiro que o construiu: Augusto Frederico de Lacerda, no século XIX) e Mercado Modelo (inaugurado no início do século XX. Hoje abriga cerca de 260 lojas que vendem artesanato e lembranças locais), dois cartões postais da cidade.

Entramos na av. Miguel Calmon. O dia costuma ser quente e ensolarado nesta época do ano, mas o percurso é arborizado. À medida que vamos deixando os quilômetros para trás observamos o lado profano da festa sendo montado: barraquinhas de bebida e comida, feijoada nas casas comerciais, música para todo gosto, um vai e vem de gente.

Chegamos então na av. Jequitaia e vemos o Mercado do Ouro (construido no fim do século XIX e onde eram vendidos verduras, temperos e frutas entre outros produtos e hoje funciona o Museu du Ritmo de Carlinhos Brown e dos timbaleiros). Ainda na Jequitaia (que só foi aberta em 1940) está o Trapiche Barnabé (construido lá pelo século XVIII, já foi soterrado e sofreu com incêndios e que leva o nome de seu fundador) e o plano inclinado que liga a Cidade Baixa ao Santo Antônio Além do Carmo (inaugurado em 1932).

Mais quilômetros vão sendo vencidos e chegamos no bairro da Calçada, primeiro bairro entre a Cidade Baixa e o subúrbio ferroviário da cidade. Vislumbro à esquerda a Feira de São Joaquim ( em um espaço de cerca de 60 mil metros quadrados produtos ligados à cultura popular são vendidos) e à direita a belíssima Igreja dos Órfãos de São Joaquim (construida no início do século XVIII e onde hoje acontecem bonitos casamentos). No Largo de Roma estão as Obras Sociais de Irmã Dulce.

É mesmo uma benção enxergar a subida para a Colina Sagrada. Os últimos 100m são duros, mas chegar aos pés da Igreja do Bonfim emociona. Fieis, corredores e não corredores, tomam banho de folhas e amarram fitinhas do Bonfim no pulso. É uma corrida com uma  energia diferente.

É! Como diz o ditado: quem tem fé vai a pé. Ou então correndo. E 6,5 Km depois, bençãos recebidas, é hora de voltar. O jeito é caminhar (ou é melhor correr de volta?). O sol já está alto, e a festa, uma das mais tradicionais de Salvador, já começou. Andando no sentido contrário, nos deparamos com o cortejo: as baianas, grupos de músicos, de políticos, de fieis e de festeiros. Todos indo para o mesmo local.