terça-feira, 18 de agosto de 2015

A poetisa ANNA AKHMATOVA nos convidou para ENTRAR e nós ACEITAMOS, São PETERSBURGO, Rússia


Em nosso quarto e último dia em Petersburgo, fomos brindados com um lindo dia de verão, com temperatura amena e céu azul. 

Correio
Sim, ele ama postais. Em quase todas as cidades em que nós visitamos, Léo envia postais para ele mesmo e para alguns amigos. Por isso, estamos sempre em busca de correios, caixas coletoras, postais e selos. Já faz parte da viagem e eu aprendi a esperar pacientemente por estes momentos. Ainda bem que a maioria dos correios tem lugar para sentar.

O que não foi o caso deste pequeno correio, que fica entre o hotel Ibis e o shopping Galeria. Tem um símbolo na entrada, muito discreto, eu diria. Demoramos um pouco para achar, até porque não parecia em nada com um correio e sim com um prédio de apartamentos, e deve ter sido, em outras épocas.

Resolvemos arriscar, subindo as escadas até os pisos superiores com um misto de ansiedade, medo e curiosidade por estar entrando em um lugar que me remeteu aos meus estudos sobre o comunismo. Não pudemos descobrir o que funcionava nas outras portas fechadas, mas de fato em uma sala, que parecia um antigo apartamento, funcionava o correio, sem lugares para sentar, e Léo pode enviar seus postais.

Museu de Anna Akhmatova 

Entrada do Museu Anna Akhmatova - Nevsky 53
Subindo para o Museu Anna Akhmatova
Dos correios, caminhamos até o Museu Anna Akhmatova na Casa Fountain. Anna Akhmatova, foi uma das mais famosas poetisas russas do século XX. Ela viveu por quase 30 anos no segundo andar deste prédio, em São Petersburgo. A casa fica na Nevsky 53, e é fácil de achar (números ímpares de um lado e pares do outro). No entanto, a entrada da casa não fica para a rua. Para ter acesso temos que atravessar um corredor, uma espécie de passarela que me lembrou um pouco os cortiços cubanos.

Como todas as informações estavam em russo, entramos e saímos algumas vezes até nos aventurarmos pelo jardim e acharmos a bilheteria. O jardim estava um pouco mal cuidado, mas foi possível imaginar o que deve ter sido em tempos outros.

Uma senhora (ah! sempre as senhoras russas! Adoráveis e gentis) nos vendeu os ingressos, e nos explicou em seu inglês rudimentar que eles nos davam direito a visitar o estúdio do poeta Josef Brodsky, que não havia vivido naquele local, mas que tinha forte ligação com Anna e por isso seu estúdio foi recriado ali e vale dar uma olhada, antes de sair.

Na recepção, um artista estava expondo seus quadros. Seu nome foi impossível de registrar, mas ao sairmos, ele me abordou indicando com gestos que ele era o autor dos quadros ali expostos. Era arte moderna e então ele me pediu que eu escrevesse alguma coisa, em meu idioma. Escrevi "Encantada com os russos, a Rússia e a arte deste país.". Fiquei pensando: será que minhas palavras e minha letra iriam ser transformadas em arte?

A cozinha de Anna Akhmatova

Muitas malas de viagem
Descobrindo outras formas de se viver
A casa de Anna continua montada como ela vivia: uma casa russa de meados do século XX. Lembrou um pouco a casa de minha avó, mas fiquei imaginando o que deve ter sido viver ali durante o inverno russo. Viúva (seu marido foi executado por suposto envolvimento em causas anti comunistas), ela foi obrigada a viver com pouco dinheiro, sofrendo severa censura soviética, sem poder publicar as suas obras, enquanto Stalin era vivo.

Podemos circular livremente por todos os ambientes, pelo tempo que quisermos, e tirar fotos. Estava quase vazio quando nós fomos, com apenas um grupo pequeno de senhores europeus, e quando saíamos entravam alguns jovens russos.

Na sala de Anna com uma das adoráveis senhoras russas que tomam conta dos museus

Nós e a foto

Lendo um pouco sobre a biografia de Anna Akhmatova
Há algumas senhoras russas cuidando da casa de Anna. Em cada um dos ambientes há uma folha com informações básicas sobre a poetisa e a casa. Já sabendo disso, optamos por não alugar áudio guias. Ler sobre o local e seus moradores humaniza o lugar, ele passa a ter uma alma e de alguma forma, mesmo que superficialmente, eles tornam-se nossos conhecidos.

Quando entramos na sala de jantar, uma das senhoras já colocou em nossas mãos uma das folhas informativas e nos indicou com um amplo gesto que deveríamos sentar à mesa para ler melhor. Assentimos, mas enquanto não sentamos, lemos e tiramos foto, ela não sossegou. Então, ela sorriu satisfeita.

Foi uma visita ótima, especialmente por conhecer um personagem real que sofreu com a era soviética, tendo seus pensamentos e sonhos tolhidos, dividindo o apartamento, e sua intimidade, com outras pessoas, perdendo pessoas amadas, destruídas pelo regime comunista.

A casa de Anna por fora

Os jardins da casa de Anna

A saída, por este corredor que lembrava Havana 
Caminhando em direção à Igreja do Cristo do Sangue Derramado
Após a visita à casa de Anna, ainda demos uma volta pelos jardins e voltamos caminhando pela Nevsky, em direção à Catedral do Cristo do Sangue Derramado, mas esta é uma história para o próximo post.