sábado, 31 de outubro de 2015

CENTRÃO de MEDELLÍN, Antioquia, Colômbia



Descemos do metrocable na estação Acevedo, de onde havíamos partido, e fomos caminhando para o centrão de Medellín. Tudo por ali me pareceu muito familiar: um misto de centro de São Paulo, com o do Rio de Janeiro e um toque de Salvador. Se isolasse o som das vozes, me sentiria no Brasil. 

O centro é uma babilônia de pessoas de muitas cores, aspectos, roupas: uma festa estranha, com gente esquisita, interessante, colorida, bonita e misturada. Trânsito intenso, caos, barulho. Para o centrão de uma cidade, até que achei limpo. 

Catedral Metropolitana de Medellín

Estátua de Bolívar
Passamos primeiro em frente à Catedral Metropolitana de Medellín, que estava fechada. Ela começou a ser construída na segunda metade do século XIX, mas só foi inaugurada no século XX. A Catedral, oficialmente Catedral Basílica Metropolitana de la Inmaculada Concecpción de Maria, um nome pomposo demais para a igreja com ares rústicos, possui uma fachada muito bonita, toda de tijolinhos aparentes, comuns nas construções da cidade, que os colombianos chamam de ladrillo.

A Catedral fica no bairro Villanueva, no Parque de Bolívar, que tem este nome em homenagem a Símon Bolívar, libertador da Colômbia, Venezuela, Equador e fundador da Bolívia, cuja estátua está exposta no meio da praça. 

P e G me contaram  que esta é uma praça muito tradicional e conhecida na cidade, onde elas iam muito para brincar quando eram crianças, fazendo parte de suas memórias afetivas. Me lembrei do Campo Grande, onde meus pais me levavam para andar de bicicleta quando eu era muito pequena. 

Enquanto estávamos em frente a estátua de Bolívar, um tipo nos abordou pedindo dinheiro e não conseguindo seu intento, começou a gritar que era por isso que ele roubava e que era isso que ele ia fazer. Ficou agressivo e eu fiquei com receio do que poderia acontecer, mas ele nos deu as costas e foi embora resmungando. Tenho a impressão que meu medo da violência se intensifica um pouco quando estou fora de meu domicílio, mesmo em países com índices menores de violência, porque não a conheço, não sei qual a sua dinâmica. 

Calle Junin
Salão do Astor Reposteria

Suco de Tangerina

Cañon de cerdo

Moro de Ranita
Fomos para a calle Junin, um calcadão também muito tradicional e antigo da cidade, onde antigamente os casais de namorados iam passear ao que eles chamavam de juninean. Havia movimento intenso e estávamos com fome. 

Almoçamos no Astor Reposteria y Salón de Té, um grande salão, super simples com um cardápio de pratos, sanduíches e doces, fundado em 1930 por um suiço de nome Enrique Baer. Os primeiros clientes eram os expatriados europeus que depois de visitar as lojas chiques da rua e de juninean paravam no salão para tomar um chá e comer doces. 

Atualmente os clientes são todas as pessoas que circulam por aquela área, chiques e não tão chiques assim, incluindo nós. G me contou que muitas vezes eles iam até ali só para comer o moro de ranita, o sapito verde recheado de chocolate. Em Roma, como os romanos, experimentamos o sapo de boca aberta e não gostei, mas não sou uma aficcionada por doces afinal, e minha opinião não vale muito. 

Para o almoço escolhi o cañon de cerdo (porco), que não tinha nenhum glamour mas que estava muito gostoso: o molho de uchuvas (fruta) me agradou muito, assim como o suco de tengerina que pedi para acompanhar. Para finalizar, claro, um tinto. 

Basílica de Nuestra Señora de La Candelaria

Interior da Basílica de Nuestra Señora de La Candelaria
Depois do almoço, continuamos explorando o centrão de Medellín. Passamos pela Basílica de Nuestra Señora de la Candelaria (entre calle 51, Cra. 50), uma bonita construção com fachada branca e teto, no interior, em madeira. É uma igreja clara e despretensiosa o que a torna muito graciosa. Não estava tendo missa, mas havia muitos fieis em postura de oração. 

Sua primeira construção foi no século XVII quando Medellín nem era uma vila ainda, mas aquela estrutura antiga era muito pouco sólida. O atual edifício é do fim do século XVIII e é Monumento Nacional da Colômbia.

Saímos dali em direção ao Palácio de La Cultura Rafael Uribe Uribe. Conto esta história no próximo post. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Beleza, FUNCIONALIDADE, barulho, CORES, PROJETOS e até um certo CAOS: Medellín, Antioquia, Colômbia


O tempo amanheceu frio naquela quarta-feira, nas montanhas de Medellín. Já estávamos no país há dois dias e era hora de começarmos a conhecer mais intimamente a cidade, na medida em que um visitante consegue conhecer. 

A região de Antioquia se mostra facilmente. Ela tem orgulho de ser o que é e por este motivo se expõe, se descortina e até se exibe para qualquer um que esteja interessado em observar. 

O dia amanheceu frio nas montanhas

Arepa de choclo: minha preferida

Café da manhã
Tinto
Antes de iniciarmos nossa jornada por Medellín, tomamos café da manhã, com as tradicionais arepas, que os colombianos herdaram dos índios, antigos habitantes do país. A minha preferida é a de chócolo, mais grossa, mais macia, mais amarelinha. Até hoje quando eu me lembro fico com a boca cheia de água. Uma das minhas saudades deste país.

O recheio pode ser qualquer um. Eu geralmente comia com manteiga e queijo. O queijo na região de Antioquia é absurdamente macio e gostoso. Às vezes colocava um ovo mexido. Como fogão e panelas não são o meu forte, não sei exatamente como as arepas são feitas. Sei apenas que leva farinha de milho: branca ou amarela. 

Minha maneira favorita de comer as arepas era como tortilla, como uma mini pizza, com o recheio sobre ela, segurando com a mão,  mas encontramos também estilo sanduíche. As possibilidades são inúmeras. 

Como uma tradição criada por nós, para potencializar todos os momentos, sempre que nossas amigas chagavam para nos pegar, tomávamos um tinto (café colombiano coado servido em xícara grande), enquanto planejávamos as próximas horas e conversávamos sem parar. 

Estação de metrô Poblado

A estação limpa e nova apesar de já ter cerca de 20 anos

A estação de metrô

Mapa do metrô
Fomos até a estação Poblado para pegar o metrô. A ideia era subir o famoso metrocable, o teleférico que inspirou o Rio de Janeiro. O sistema é integrado (alimentadores, metrô e metrocable), mas tem um tempo para o uso do bilhete único. Há opções de bilhete para um ou mais dias, mas como não sabíamos o que seria de nosso dia e dos próximos, compramos o bilhete individual.

A fila estava enorme, mas andou rapidamente e eu fiquei muito surpresa com o metrô de Medellín. Ele é impressionantemente limpo e parece que acabou de ser inaugurado quando na verdade já está em funcionamento há cerca de 20 anos. 

Ele é todo de superfície, o que nos proporciona uma viagem sobre os telhados da cidade. Quase esperei ver Mary Poppings e os limpadores de chaminé cantando para mim. 

Na estação de metrocable

No metrocable

Uma das paradas do metrocable

A vista das comunidades e do metrocable

Uma das paradas

No metrocable
Nós descemos na estação Acevedo, onde tomaríamos o metrocable. Da estação tivemos a visão do morro que iríamos subir. Nas cabines do teleférico cabem até seis pessoas e nós quatro ocupamos um deles. É muito alto e nós não fomos até o ponto final onde estava o Parque Arvi, porque o dia havia esquentado e fazia muito calor. 

Em minha opinião foi uma experiência impressionante. A viagem em si é muito parecida com os teleféricos que nos conduzem nos cerros para praticarmos snowboard, mas a paisagem é completamente diferente: casas e mais casas morro acima, cortados por ruas de asfalto perfeito e sem buracos, crianças jogando pelada em campos estruturados, pessoas vivendo suas vidas e nós sobrevoando estas vidas. 

O metrocable faz parte do que eles chamam de cultura metro onde o governo investiu em mobilidade urbana, entendendo que isto era necessário para melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. No entanto, a cultura metro envolve muitos outros elementos necessários para que o projeto da mobilidade urbana seja sustentável.

Assim, a cultura metro compreende capacitação e geração de trabalho e renda para as pessoas que trabalham direta ou indiretamente nos meios de transporte público (metrocable, metrô, alimentadores - micro-ônibus que levam até as estações de metrô -  e ônibus), a educação de crianças e adultos no entendimento de que o patrimônio público é um bem de todos e para todos, colocando o cidadão como protagonista social no cuidado de sua cidade, além do controle da violência.

Enquanto subíamos, G e P nos contaram que a cultura metro mudou a cara da cidade. Que havia comunidades que nem a polícia entrava por conta da violência, até que Álvaro Uribe, então governador do departamento de Antioquia, afirmou que tudo aquilo era Colômbia e que ele não poderia permitir territórios dominados pelo tráfico e entrou com força e determinação, pacificando estes territórios: construiu quadras de esportes, escolas, implantou o metrocable que melhorou a acessibilidade dos moradores, manteve policiamento ostensivo e tudo foi melhorando. 

Quando saímos de Antioquia, Medellín estava prestes a inaugurar o transmilênio. Confesso que ver projetos gerando resultados positivos foi inspirador e pensei em meu país, em suas potencialidades e voltei para casa com mais esperança.

Cenas cotidianas

Na estação Santo Domingo

O metrocable que ainda sobe

Ônibus que fazem a travessia dentro dos morros

caos

A estação Santo Domingo

As cabines que cabem até 6 pessoas
Descemos na estação Santo Domingo. Confesso que apesar de tudo o que nossas amigas nos contaram a respeito do controle da violência, que a minimizou, me senti insegura quando desci na estação e me vi no meio da favela. 

Havia dois policiais que nos informaram que a Biblioteca Espanha estava fechada. Eles nos disseram que era tranquilo e seguro circular por ali. Confiamos. Não nos afastamos muito (estava realmente muito calor) mas ficamos um bom tempo observando a dinâmica daquele lugar, o caos, o barulho, a intensidade de pessoas, carros e ônibus subindo ruas estreitas disputando espaço com moradores, pois não havia calçada. Barraquinhas de frutas e o metrocable sobre nossas cabeças.

Eu fiquei fascinada com aquilo e poderia me encostar em algum lugar e gastar horas só observando. Mas havia muito por fazer no asfalto e o tempo era curto. Compramos novo bilhete individual e descemos para a estação Acevedo.

Desta vez em nosso carrinho, além de nós quatro havia mais dois ocupantes. Como G é muito falante e adora socializar logo começou a puxar conversa: um de nossos companheiros contou que havia muitos novos projetos em andamento, com foco na qualidade de vida das pessoas como por exemplo tirar os moradores que construíram suas casas em áreas de alto risco, aquelas que estão no topo das montanhas e transformar estas áreas em parques, dando nova e segura moradia para o público remanejado. 

O outro projeto que ele mencionou e que considerou como o mais ambicioso deles é o que irá tratar as águas negras que são os esgotos das residências que são jogados nos rios, poluindo-os e assim recuperá-los, como o Cauca, que corta a cidade. A previsão de conclusão é de 10 anos e o nosso relator falava cheio de otimismo e orgulho. 

Embora a Colômbia esteja conseguindo resolver seus problemas, o caminho ainda é longo: há muitos dilemas típicos de nossa querida América do Sul a serem solucionados e dificuldades a serem superadas. 

Da estação Acevedo nós seguimos a pé para o centro da cidade.

Os sons de Medellín:


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Ponte do OCIDENTE - uma linda VELHA em ANTIOQUIA, COLÔMBIA


Deixamos Santa Fé de Antioquia, felizes com o nosso delicioso dia, percorrendo as histórias deste povoado tão simpático, tão tranquilo, onde o passado não está escondido entre nuvens e escuridão, ao contrário está exposto e disponível para qualquer um que queira mergulhar nele. Em Santa Fé de Antioquia passado e presente se misturam de tal maneira que a gente nem sabe quem é quem e onde o futuro pertence somente ao futuro, porque ele nem tem tanta importância assim.

Os mototaxis em Santa Fé de Antioquia na Plaza Mayor

Iniciando a travessia na Puente de Occidente

A bela ponte
Seguimos para a Puente de Occidente: eu, sem muito entusiasmo confiando em nossas amigas e guias Glória e Patrícia. Afinal, o que havia de especial em uma ponte? Pois fui surpreendida! 

A Ponte do Ocidente levou 8 anos para ser construída e enfrentou muitas dificuldades neste processo, especialmente para trazer os materiais necessários para sua construção, muitos deles vindos do exterior. Nesta época, Antioquia estava dividida geograficamente pelo rio Cauca e era muito difícil e custoso atravessá-lo. 

Nós fomos de carro, mas na Plaza Mayor, em Santa Fé de Antioquia, há mototaxis muito charmosos que fazem a travessia até a ponte. 

A ponte sobre o rio Cauca

Belezuras que encontramos pelo caminho

A ponte, suas torres, Léo e os mototáxis. 
Inaugurada em 27 de Dezembro de 1895, a Puente de Occidente reina absoluta e imponente, consciente de sua beleza com suas 4 torres de 11 metros de altura cada e de sua importância, ligando Medellín a Sucre, soberana sobre o rio Cauca, vencido pela engenhosidade humana.  

O que eu posso dizer? A velha ponte é verdadeiramente linda, rodeada de uma paisagem exuberante: um contraste perfeito das criações naturais e da criação do homem, em completa harmonia, como um quadro pintado cuidadosamente. 

Só é possível passar um carro de cada vez e ao chegarmos na cabeceira dela tivemos que parar e observar se já tinha alguém atravessando antes de nos jogarmos sobre ela. Havia um carro cruzando-a e por isso, aguardamos. Há também uma via para pedestres: tanto de um lado quanto de outro. 

Linda paisagem

A beleza da ponte

Atravessando por um lado

Parando para apreciar

A estrada que nos leva de Santa Fé até a ponte

Voltando pelo outro lado.

Tentando me equilibrar

Mototaxi

Os cabos que sustentam a ponte
Resolvemos atravessar a ponte a pé para senti-la melhor, apreciar a bela paisagem e simplesmente caminhar, porque somos andarilhos e gostamos de ir onde nossos pés nos levam. 

A ponte balança muito e parece muito frágil com sua passarela de madeira antiga. Senti vertigem, porque tenho agonia de altura, embora sempre a enfrente. Bom, quase sempre. Para minha tranquilidade, abaixo da madeira, havia uma proteção.

O vento por ali estava forte, dificultando um pouco o deslocamento, mas a vista definitivamente valeu à pena: esta paisagem montanhosa, que me remete a silêncio e aventura, mesmo quando não estão presentes nenhuma destas duas variáveis, me atrai muito. 

Depois da travessia, ainda ficamos um tempo por ali, sem fazer nada, sem pressa de deixar aquele dia para trás. Mas tínhamos que partir. Era chegada a hora de voltarmos para Medellín, que nos aguardava.

Voltando para Medellín

A cor do céu de Antioquia
Voltamos para casa em Medellín, nossa casa naqueles dias, pela mesma estrada que fomos para Santa Fé. Uma estrada excelente e muito bem conservada. Som alto, com musica local rolando e nossas amigas cantando alegremente. Saber que elas também tinham apreciado o dia me deixou feliz. 

Dirigimos durante o crepúsculo e vimos o céu ir mudando de cor, o dia nos dando adeus. O céu de Antioquia é de um azul absurdamente bonito. Em todos os dias em que estive na região, parei à noite para observa-lo e tentar guardar em minha mente aquela tonalidade.

Na estrada, passamos, tanto na ida, quanto na volta, por um interminável e claustrofóbico túnel de 6 quilômetros. Pat nos contou que ele encurtou a viagem em mais de 1 hora.

Chegamos em Medellín no finalzinho do horário de pico y placa (rodízio de carros, como tem em São Paulo) e por isso tivemos que parar por uns 5 minutos no estacionamento de um mercado para podermos entrar na cidade. O trânsito, para variar, estava parado e demoramos mais tempo para atravessar a cidade do que levamos na estrada de Santa Fé a Medellín. 

Agora era hora de dormir porque no dia seguinte havia muito mais o que ver e conhecer.

ESPIANDO PELO MUNDO EM IMAGENS