segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CÚPULA de Santa MARIA del FIORI (Duomo), Florença:


Depois de me deliciar com obras primas como a Primavera de Botticceli na Galleria degli Uffizi, de voltar ao passado na Officina Profumo-Farmaceutica, de ter uma experiência mágica na Chiesa di San Miniato al Monte e apreciar o céu da Toscana mudando de tonalidade no entardecer florentino, na Piazzale Michelangelo, eu tinha certeza que Florença já tinha me revelado todas as suas belezas e maravilhas.

Eu estava redondamente enganada! A cidade estava apenas começando a me surpreender e naquele sábado eu provaria muito mais da grandiosidade florentina. Foi o dia em que subimos até a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiori. 

Florença ainda meio adormecida

Ruas vazias em uma manhã de sábado

Chegando no Duomo

Todo o esplendor do Duomo, Campanário e Cúpula

A caminho da entrada para subir o Duomo

Esperando abrir: somente uma menina em nossa frente. Os meninos não entraram

Iniciando a subida dos 463 degraus
A cidade estava meio adormecida ainda, começando a despertar, quando deixamos o hotel naquela manhã: as ruas estavam sendo lavadas, cafeterias levantando suas portas, poucas pessoas nas ruas. Chegamos cedo ao Duomo, onde compramos o ingresso que nos dava direito a subir até Cúpula de Santa Maria del Fiori, entrar na Santa Reparata, no Museu dell´Opera do Duomo, no Batistério e no Campanário de Giotto. Este tipo de bilhete vale por 24 horas.

A bilheteria, que fica na Piazza di San Giovanni em frente à porta norte do Batistério, estava abrindo: era por volta de 08:15 da manhã. Sônia (olha ela aqui de novo) nos recomendou chegar à entrada do Duomo antes de abrir, evitando assim, não só as filas, como também os milhares de turistas que costumam subir todos os dias. Dica preciosa! Só havia uma menina em nossa frente e ninguém depois de nós.

Às 08:30 as portas do paraíso se abriram, nós passamos pela catraca e iniciamos a subida dos 463 degraus em direção ao topo. Eu confesso que não sabia bem o que ia encontrar. Nada do que eu havia lido até então me havia preparado para o que estava por vir.

Batistério e Duomo com sua cúpula
A Catedral de Santa Maria del Fiori começou a ser construída em 1296 e desde então sofreu várias alterações ao longo dos séculos. A cúpula, por exemplo, foi iniciada em 1420 e finalizada em 1463 e é obra do arquiteto Brunelleschi e por isso inclusive é também chamada de Cúpula de Brunelleschi.

Esta obra carrega com ela inúmeras curiosidades arquitetônicas que a tornam magistral como, por exemplo, ter sido construída sem andaimes, ter sido inspirada na espinha de peixe, ou seja, tijolos colocados entre vigas de mármore seguindo um padrão de autossustentação, assim como o Pantheon de Roma e possuir 45 metros de diâmetro. 

Corredores estreitos e ocasionais feixes de luz vindos do exterior

A longa subida

Vislumbres dos telhados florentinos

Apesar dos avisos, rabiscos poluindo as paredes

Florença
A escadaria apareceu para nós, logo após a catraca e ela era estreita, dura e seca, alternando momentos de penumbra e feixes de luz que vinham do exterior. A primeira parte da subida não é difícil, mas definitivamente não é para todos. Não somente pela quantidade de degraus, como também pelos corredores estreitos. 

Apesar dos avisos para não escrever nas paredes, elas estão repletas de mensagens e rabiscos poluindo visualmente o local. Ao longo da subida há umas janelinhas onde podemos vislumbrar os telhados de Florença.

A catedral de Santa Maria del Fiori

Estava acontecendo uma missa

Vários padres rezando uma missa: gosto de rituais

Proteção para podermos apreciar o afresco de Vasari com segurança

Recorte do afresco de Vasari

O inferno

Recorte do Inferno

O Juízo Final de Vazari e Zuccari
Ao finalizarmos a primeira parte da subida, nos deparamos com um apertado corredor circular, vedado por uma proteção do que me pareceu plástico rígido: olhando para baixo tivemos uma visão ampla da catedral e quando olhamos para o alto, estávamos próximos do impressionante afresco pintado por Giorgio Vasari e finalizado por Federico  Zuccari, representando o Juízo Final (1572-1574).

Mais uma vez, naquela cidade absurdamente interessante, me vi boquiaberta e estupefata. Estiquei a mão e desejei ser catapultada para aqueles círculos que simbolizavam o céu, o purgatório e o inferno. Desejei ser Dante e até chamei por Virgílio. O afresco em questão é a obra mais extraordinária que já tive a felicidade de mirar, depois de A Última Ceia de Leonardo da Vinci.

De certa forma eu fui abduzida para dentro daquelas cenas porque no tempo, que não foi pouco, que passei ali, tenho apenas a vaga lembrança de pessoas, turistas como nós, chegarem e partirem rapidamente e de ouvir distantes murmúrios.

O afresco é um octógono representando os 7 dias da semana e o 8° representa o dia do Juízo Final. Vasari pintou um autorretrato em uma das cenas, colocou seus amigos no céu e os inimigos no inferno. Ah! O poder dos artistas! Estão ali também as 4 estações do ano e o Sr. Tempo com o passado e o futuro. Estão imortalizados ainda o 7 pecados capitais bem como as 7 virtudes. 

Foi com muito, muito esforço, que abandonei as cores e a emoção que aquelas cenas estavam me causando. Queria decifrar e absorver todos os detalhes, ler os olhos, entender as intenções. Se eu fiquei embasbacada, chocada, atônita, pasmada mesmo com a obra de Vasari e Zuccari, fico imaginando o que não deve ter causado no povo Toscano quando o afresco foi apresentado. Parecia tão real! Mas era preciso continuar a subida e não podia ficar ali para sempre, afinal de contas.

Corredores estreitos nos levam à cúpula

Subida que exige certo esforço

Trechos mais íngremes

Degraus menores
Último lance de escadas
O final da jornada foi um pouco mais difícil porque havia lances de escada mais íngremes e estreitos, mas nada impossível ou complicado de ser feito desde que a pessoa não tenha problemas de locomoção, claustrofobia ou qualquer outro impedimento. 

Além disso, o caminho era único e havia vai e vem de pessoas se espremendo para passar pelos corredores apertados. O último lance era um buraco no chão: fácil de sair, mas descer de volta exigia uma certa habilidade. Ao sairmos dela nos vimos no topo do mundo. Devo dizer, valeu cada degrau galgado para chegar até ali. 

O campanário sobre Florença

Florença e sua tonalidade terrosa

O céu e a cidade


Olhar, olhar e olhar

Vista que não cansa

Florença e sua beleza

O campanário de Giotto

Santa Maria della Croce

Palazzo Vecchio
A vista do Duomo é linda. Vemos Florença e as montanhas da Toscana em 360 graus. Havia pouca gente quando chegamos (cruzamos com pessoas descendo enquanto subíamos, mas de forma esporádica): apenas uma família, pai, mãe e duas crianças e um jovem casal. Quando deixamos a cúpula, ela começava a ficar cheia, e imagino, pelo espaço não ser muito grande, que deve dificultar o circular, o apreciar e o tirar fotos com muitas pessoas lá em cima.

As cores da Toscana, tons terrosos, me agradam e muito. Os telhados de Florença me deixaram apaixonada. É possível ver o Campanário e seus 82 metros e muitos símbolos da cidade. Ficamos. Só isso. Ficamos ali, olhando, olhando, olhando. Uma vista que nunca cansa. 

Hora de fazer o caminho de volta

Parando mais uma vez para contemplar o Inferno de Vasari

Parece que Brunelleschi construiu as máquinas que usou na obra da cúpula e aqui estão algumas das originais. É possível vê-las na descida

Corredores estreitos e paredes pichadas: dor no coração com a poluição visual
Florença definitivamente tem muito a oferecer e eu estava com sede de ver tudo o que pudesse. Então iniciamos o caminho de volta: deixamos as nuvens em direção ao solo.

Horários de funcionamento:
·         Igreja: de segunda a sexta das 10:00 às 17:00; aos sábados das 10:00 às 16:45 e aos domingos das 13:30 às 16:45.
·       Cúpula: de segunda a sexta das 8:30 às 19:00, aos sábados das 8:30 às 17:40 e aos domingos das 13:00 às 16:00.
·         Batistério: de segunda a sexta das 8:15  às 19:00, no primeiro sábado do mês das 8:30 às 14:00 e aos domingos das 8:30 às 14:00.
·         Campanário: todos os dias das 8:30 às 19:30.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

CHIESA di San MINIATO al Monte, Florença:


Aquela noite em Florença chegou ainda mais gelada que o fim de tarde. Depois de assistirmos ao lindo por do sol na Piazzale Michelangelo, de onde temos uma belíssima vista de Florença, nós caminhamos até a Chiesa di San Miniato al Monte (Via Monte alle Croce), um pouco mais acima, virando à direita na pista principal.

Estava tudo escuro e não havia ninguém mais andando além de nós. Muito de vez em quando passava um carro. Eu podia ouvir os meus passos e me senti como se estivesse em um filme de terror e esperei que a qualquer momento fôssemos atacados na estrada.

Seguimos no tato e no instinto porque não havia nenhuma indicação de como chegar à igreja. Pelo menos, eu não vi, na escuridão da noite e com meu coração aos pulos, batendo mais que os sinos das muitas igrejas de Florença.

Chiesa di San Miniato al Monte

Chiesa di San Minato al Monte
Enfim chegamos aos pés da escadaria da Chiesa di San Miniato e eu tive vontade de desistir: tudo estava frio, escuro e parecia deserto. Mas a Igreja estava bem ali, linda, olhando para nós, nos chamando, ao alcance de meus dedos. Não resistimos. Além disso, Sônia havia nos dito que àquela hora, 17 horas, haveria uma missa com cantos gregorianos e eu queria muito ver aquilo porque gosto de assistir rituais. Subimos as escadarias. No alto, alguns jovens estavam sentados na mureta. A igreja estava aberta e a missa já havia começado.

Chiesa di San Minato al Monte e a nave principal

Chiesa di San Minato al Monte suas colunas e uns poucos turísticas que entravam vez ou outra

Léo buscando informações sobre San Miniato

Léo assistindo a missa que acontecia na cripta em um nível mais baixo

As escadarias que levam ao andar superior

O teto
A Igreja de San Miniato al Monte é uma igreja romântica, cuja construção iniciou-se em 1018 sobre o túmulo de San Miniato, um rico negociante armênio que foi decapitado no século III devido às suas crenças. Ele deixou seu país e saiu em peregrinação até Roma. Chegou a Florença no ano de 250 d. C. e tornou-se um ermitão.

San Miniato estava na penumbra quando entramos e a voz do padre ecoava no silêncio com o sermão daquela noite. A missa acontecia na cripta, que se localiza ao fundo da nave principal, em um nível mais baixo e abriga diversos túmulos.

A igreja por dentro é estonteante: alta, com afrescos antigos e chão de mármore.

Deixando-me levar por aquele clima eu caminhei pela igreja, em silêncio, onde somente se ouvia a voz do padre rezando em latim. Não enxerguei os detalhes, não vi muita coisa, apenas senti. Eu estava no andar superior quando trovejaram, por todos os poros da pequena chiesa, os cantos gregorianos. Minha alma se arrepiou. Eu parei e fechei os olhos: foi forte, foi mágico.

Ouvindo e sentindo a atmosfera mágica por conta da missa rezada em latim e dos cantos gregorianos
Desci e sentei-me em um dos bancos para continuar ouvindo. O lugar tinha uma atmosfera diferente, à meia luz, com a missa em latim alternando com os cantos gregorianos em um lindo templo romântico do século XI. Em nenhum momento eu assisti a missa, mas era possível descer e sentar-se na cripta para ver. 

Foi absurdamente marcante, intenso, espiritual. Eu gostaria de ter voltado à San Miniato durante o dia para ter a oportunidade de observar seus detalhes, poder ver tudo o que a pouca luz não me deixou ver, ou então para ver o por do sol novamente, desta vez da mureta da bela igreja, mas infelizmente não tivemos tempo. 

A fachada de San Miniato que mostra diferentes influências de séculos distintos de reformas

A linda vista de Florença desde a mureta de San Miniato

Iniciando a descida para a cidade na calada da noite escura

A Torre de San Niccolò que tinha a função de vigiar o rio Arno para evitar invasões de inimigos: um dos monumentos que podemos ver mais ou menos de perto em nossa descida da Piazzale Michelangelo. 
Ao final da missa, saímos para o ar frio da noite toscana e a energia que circulava era pujante, poderosa. Do pátio de San Miniato também temos uma vista ampla e bonita de Florença. A noite estava agradável e resolvemos descer para o centro caminhando.

É uma descida fácil: voltamos para a Piazzale Michelangelo e pegamos a estradinha que passa por baixo da mureta. No caminho pudemos ver mais ou menos de perto a torre de San Niccolò, cuja função era vigiar o rio Arno para evitar invasões de inimigos. Mais uma vez somente nós caminhávamos. A noite era inteiramente nossa.

O rio Arno, com a Ponte Vecchio ao fundo e o Palazzo Vecchio ao lado direito da foto. 

Tem alguma coisa mágica nas luzes de Florença

Florença é linda à noite e vale a caminhada, mesmo no frio.

Florença com sua beleza imperfeita
Voltamos para o hotel margeando o rio Arno e Florença estava linda, toda iluminada, com os prédios lançando seus reflexos nas águas. Há algo de mágico nas luzes de Florença, sejam elas naturais ou artificiais.

Foi assim que nós encerramos nosso segundo dia na cidade. Definitivamente Florença era muito, muito mais do que prometia ser.