terça-feira, 29 de março de 2016

Il MERCATO Centrale di FIRENZE, Florença:


Enquanto Léo corria a Maratona di Firenze, eu perambulava sem rumo ou destino pela cidade, mergulhada em suas cores, nuances e movimento. Eu reinventei Florença em minha memória nestas horas de solidão. Ela ganhou novo sabor para mim.

Após a maratona e o banho, sem almoço, pois ele corria e eu caminhava, resolvemos almoçar e jantar em uma única refeição no Mercado Central de Florença, onde chegamos por volta de 17 horas: um pouco antes, um pouco depois. 

O Mercado Central de Florença
O Mercato Centrale fica em um edifício de dois andares, de ferro fundido e vidro construído em 1874 por Giuseppe Mengoni. Quando chegamos, neste domingo, famintos, o andar térreo estava fechado. Eu sabia que nele estava o colorido das frutas, verduras, carnes, peixes e especiarias, que tanto me encantam, mas a visita ali ficaria para outro dia, pois nesse momento, além dele estar fechado, meu estômago vazio era quem comandava a cena. Precisava comer!

Para termos acesso ao mercado, que fica na Rua San Lorenzo, passamos por um mercado de rua alternativo, com barracas bagunçadas de um lado e de outro vendendo cintos, camisetas, bolsas em uma língua que não era o italiano. 

Mapa divertido e criativo do Mercado

Quiosques diversos

Minha massa sendo preparada

Movimentado, mas nem tanto neste fim de Domingo

Meu gnocchi de espinafre

Gnocchi de espinafre com um delicioso chianti

Eataly - mercearia gourmet

Muitas informações

Preços para muitos bolsos

Mesas comunitárias

Decoração criativa e colorida
Dirigimo-nos ao primeiro andar, a praça de alimentação, democrática, com lojinhas com comida da Toscana e da Itália. Sorri de prazer e de antecipação. Estava vazio quando chegamos e aproveitamos para dar uma volta, fazer um reconhecimento de área.

Mesas comunitárias (cerca de 500 lugares disponíveis), quiosques tipicamente italianos (com muita informação decorativa) e uma mercearia (Eataly) gourmet: uma babilônia de opções, e preços, ao nosso dispor.

Não foi fácil escolher, mas como gosto do simples e descomplicado, terminei optando por uma massa: um gnocchi de espinafre com molho pomodoro, acompanhado claro de um bom chianti. 

Escolha, pague e pegue: não há serviço de mesa. Léo trazendo nossos chiantis

Corpo estava frio, mas a alma estava aquecida

Não havia pressa alguma

Na calada da noite preta, buscando novas rotas para chegar ao hotel e assim conhecer mais a cidade

Fico feliz quando posso usar os meus pés como meio de transporte
Não há serviço de mesa: escolhemos o lugar, fazemos o pedido, pagamos e sentamos. Demoramo-nos ali um par de horas, porque o lugar é bacana e agradável. Estava frio, mas a alma estava relaxada e aquecida. Ao fim de tudo, nos embrenhamos noite adentro, de volta ao hotel, sentindo o ar gelado de Florença, felizes por termos como meio de transporte nossos pés.

Horário de funcionamento

Térreo: de segunda a sexta das 7:00 às 14:00; aos sábados das 7:00 às 17:00, fechado aos domingos e feriados.
Primeiro andar: todos os dias das 10:00 a meia noite. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

FLORENÇA, pura e SIMPLESMENTE:



Domingo, 29 de Novembro de 2015 em uma manhã gelada no outono florentino, Léo correu a 32° edição da Maratona de Firenze, enquanto eu perambulava, flanava por Florença, sem rumo, sem destino, sem objetivo além do de caminhar e olhar e sentir e perceber. Foi um encontro a dois: a cidade e eu.

Delicioso café da manhã do Hotel Palazzo Ognissanti

A promessa de um ótimo dia
Acordamos cedo e eu desci sozinha para tomar café da manhã. Sabíamos que pelas próximas 4 horas e alguma coisa eu estaria por minha conta. Isso me preocupou. Isso preocupou Léo. Eu sou uma andarilha distraída. Eu vou caminhando atraída por alguma coisa e me esqueço de olhar para trás, para o lado. Esqueço-me de mim e sigo dispersa, seduzida ou então imersa em meu mundo particular de devaneios e sonhos.
Somado a isso, eu sou uma pessoa que, ao ser criada pelo Universo, pularam a parte em que colocam GPS na gente. Eu sou um exemplar de ser humano com erro de fabricação: não sei ler mapa, não tenho nenhum senso de direção, sou desorientada e vivo perdida.

Mas Florença me acolheu, foi gentil e amigável comigo. Entendemo-nos muito bem e eu passei quatro horas me deliciando por suas retas, por sua atmosfera, por sua beleza, por seu silêncio e barulho em momentos alternados. Perdi-me entre corredores, turistas, becos e vielas. Vi a cidade despertar, mudar de luz e me senti feliz, eufórica até e quando dei por mim, minha viagem particular tinha acabado. A corrida chegava ao fim e era hora de me encontrar com o meu campeão e voltar ao ritmo normal de nossa viagem.
A caminho da largada da maratona margeando o Rio Arno com a Ponte Vecchio ao fundo

Eu, a cidade, o rio Arno

O rio Arno com a Chiesa di San Miniato a Monte sobre a Piazzale Michelangelo ao fundo

Maratonistas fazendo a festa
Fui com Léo até a linha de largada da maratona. Sou meia-maratonista (nunca tive a coragem necessária para correr uma maratona) e adoro as corridas de rua, seja como corredora ou como espectadora: é uma grande festa, alegre e colorida. Eu sempre me emociono observando a força física e mental de quem corre e sempre me surpreendo com minha própria força ao cruzar a linha de chegada de uma meia-maratona: sempre choro.

Em Florença a festa foi linda. Muitos corredores cheios de expectativa, objetivos, sorriso no rosto, enfrentando o frio, música tocando. Fomos do hotel para a linha de largada margeando o belo rio Arno. Florença estava com uma cor maravilhosa de dia novo. Eu estava ainda meio sonolenta e fui despertando aos poucos, junto com a cidade.

Me despedindo de meu maratonista

Imigrantes africanos recolhendo os casacos descartados pelos corredores


Imigrante africano com um saco de agasalhos descartados pelos maratonistas

1´ de silêncio pela sexta-feira negra de Paris
Despedi-me de Léo, desejando de todo coração que ele fizesse uma prova excelente e ele fez. Fiquei por ali, observando as pessoas, esperando a largada. Uma coisa que nunca tinha visto antes me chamou a atenção: em corridas cujas temperaturas estão frias os corredores costumam usar agasalhos baratos e os descartam logo que a prova se inicia por sabem que o corpo vai aquecer e eles passam a ser desnecessários e incômodos.
Imigrantes africanos já sabendo disso ficam nas bordas dos currais onde estão os corredores e recolhem estes agasalhos. Eles conseguem recolher sacos e mais sacos de abrigos. Soube depois que isso é um verdadeiro comércio no país, pois estes casacos recolhidos serão vendidos e revendidos a outros corredores, por um preço baixo, uma vez que serão usados por pouquíssimo tempo. Reciclagem e sobrevivência.
Pouco antes da largada foi feito 1´de silêncio pelas vítimas do atentado de Paris algumas semanas antes. Havia certa apreensão de que alguma coisa acontecesse ali em Florença que estava em estado de alerta. Confesso que até a maratona começar eu fiquei preocupada, mas depois em meu passeio solitário eu me olvidei completamente de qualquer ameaça.
Foi um momento bonito em que o barulho intenso cessou imediatamente e as pessoas mal respiravam. Então soou a buzina e a maratona finalmente começou e meu encontro particular com Florença também.
Começando a me perder pelas ruas de Florença: Via Tripoli

Biblioteca Nacional de Florença

Vielas e edifícios descascados: beleza imperfeita

Arquitetura ocre da cidade

A rua e seus habitantes

As curvas de Florença
Como eu tinha tempo e não tinha objetivo algum, apenas coloquei um pé após o outro e me deixei absorver pela cidade. Eu queria sorve-la em pequenos goles, ingerir tudo o que ela podia me oferecer naquele curto espaço de tempo. Queria gravar em minha alma, sua memória, contada através de sua geografia, seus edifícios. 
Entrei e sai de muitas ruas, becos e vielas. Preferi as ruas vazias e secundárias para absorver a cidade de muitos ângulos, mas não deixei de lado seus pontos principais: Ponte Vecchio, Piazza della Signoria, Biblioteca Central, Uffizi e tantos outros que serviram para meu deleite e para me dar um senso mínimo de orientação. Florença é fácil de se locomover e de se entender pois há o rio Arno como referência.
Embora a arquitetura ocre seja antiga, de alguma forma eles avançaram no tempo. As luzes desta senhora vivida que não tem a menor vergonha de suas rugas e cicatrizes, vão mudando perceptivelmente ao longo do dia e conferem a ela uma atmosfera distinta à medida que as badaladas do relógio vão soando. Aliás, este é um dos sons mais marcantes de Firenze. 

Ruas estreitas e sem calçada

Chegando na Piazza della Signoria

Ponte Vecchio ao fundo

A beleza natural melhorada pela criação do homem

Formosura
A cidade é incontestavelmente linda. Possui uma beleza natural, melhorada pelo homem, criada para ser assim, primorosa, construída e aperfeiçoada ao longo de muitos e muitos séculos. Embora indiscutivelmente Florença tenha os dois pés fincados no passado, pois é impossível ignorar os traços muito bem conservados da Idade Média e Renascença de muitas maneiras ela vive no presente, sua atmosfera é atual e moderna.
Apesar de a beleza de Firenze ser uma unanimidade, não a achei uma beldade nos moldes óbvios de perfeição; ao contrário disso, acredito que seu encanto esteja justamente em suas imperfeições: paredes cheias de marcas do tempo, pinturas muitas vezes descascando conferindo certo ar de descaso de quem diz: posso ser linda sem muita maquiagem ou cuidados excessivos.
Ruas com buracos e cheiro forte de xixi. Ruas cheias de mistério, meio escuras, sombrias, silenciosas. Ruas que escondem histórias, cenas, vestígios de muitos tempos. Se respirarmos fundo ouvimos memórias, sussurros, lendas e romances. Sangue e tragédias com certeza.
Florença é gasta, nitidamente usada. Não é menina nova, ao contrário tem uma biografia vasta, intensa. Seus edifícios foram testemunhas e protagonistas, atores e espectadores de muitas ações: covardes e generosas.
Muitos artistas absurdamente criativos deixaram sua energia nessa cidade que respira a Dante, o maior poeta de todos, Michelangelo, Rafael, Botticelli, Giotto, Vasari... 

Não hesitei diante de nenhuma rua, praça ou viela. Senti-me segura em Florença. Sabia que ela cuidaria de mim e cuidou. Poderia ficar mais quatro horas perdida em seus braços, sem me dar conta da passagem do tempo.
Rua fechada a espera dos maratonistas

Animada torcida italiana

Esperando Léo passar

Belíssima

O primeiro lugar na maratona

Tentei bravamente ler o mapa da cidade

Reta final da maratona

Lá vem ele 
Em determinado instante, na Piazza della Republica me sentindo completamente à vontade, decidi que seria capaz de me guiar pelo mapa que tinha na bolsa. Abri cheia de confiança. Virei para um lado e para o outro, coloquei de ponta cabeça, busquei ruas e direções. Fui obrigada, muito frustrada, a guarda-lo: melhor seguir o instinto e perguntar. Afinal, quem tem boca vai a Roma e assim fui onde queria ir.
Em diversos momentos parei para ver a festa dos corredores. A cidade ia abrindo e fechando suas ruas principais para dar passagens a esses heróis da resistência e eu vibrei junto com a animadíssima torcida italiana por todos os maratonistas e pelo meu maratonista preferido. Almocei um sanduíche, em pé, na calçada, porque não queria perder um único momento sequer daquela manhã.

Vi maratonistas caindo, desmaiando, sendo apoiados por amigos, incentivados por desconhecidos. Vi maratonistas mancando, com o sofrimento marcando cada nervo de seu corpo, mas com a determinação de quem vai cruzar a linha de chagada. Vi corpos e mentes levados ao extremo. Vi suor, lágrimas e sorrisos. Acredito que todos aqueles que passem da linha de largada de uma maratona, são campeões, mesmo que não concluam a prova. 
Buscando chegar em Santa Croce

Corredores e turistas se misturam em Santa Croce

Ah! A bela e antiga, gasta e usada arquitetura de Florença. 

Ele, a medalha e Santa Croce

Voltando para o hotel com a leveza de quem alcançou seu objetivo

No caminho, uma parada no javali para acarinhar seu focinho e voltarmos a Florença um dia

Enquanto Léo toma banho, aprecio as cores da cidade, seus prédios, a temperatura fria e a revoada de pássaros comemorando o domingo.
Léo e eu nos encontramos novamente na Chiesa di Santa Croce, perto de 14 horas, na dispersão: ele cansado e satisfeito com mais uma maratona lindamente concluída e eu feliz da vida com minhas 4 horas de solidão desbravando a capital da Toscana.
Para conseguir chegar a Santa Croce tive que perguntar qual caminho deveria seguir, porque estava perdida. Os italianos são simpáticos e sempre que precisei me ajudaram com gentileza. Engraçado que depois de certo tempo eu perguntava em português e eles me respondiam em italiano e a comunicação, ainda que básica, fluía tranquilamente.
Assim, iniciei o caminho de volta para encontrar com Léo, me dedicando a não desconcentrar e me perder pelas irresistíveis curvas de Florença. Esperei por ele sentada nas escadarias da igreja, aos pés de Dante, perdida no movimento de pessoas.
Depois das felicitações, fomos caminhando para o hotel para que Léo tomasse banho e no caminho ele foi me contando sobre a maratona, o que viu e o que sentiu. Depois como já era meio da tarde, fomos para o Mercato Centrale di Firenze para um almojanta. 
Florença em imagens: