sábado, 30 de abril de 2016

A Piazza DELLA SIGNORIA, o coração de Florença:


Existe uma coisa chamada Síndrome de Stendhal e naquela terça feira de Novembro, em Florença, eu sofria dela.

A Síndrome de Stendhal é a síndrome da exposição excessiva à beleza, cujas causas são palpitações, alucinações, vertigem e falta de ar. Acontece com indivíduos submetidos a uma overdose de obras de arte, especialmente em lugares fechados como museus.

O nome da síndrome se deve ao escritor francês Stendhal, acometido por ela quando visitou Florença no século XIX e sentiu os sintomas ao visitar a Igreja de Santa Croce onde ficou por muito tempo observando os afrescos. Descreveu-o: Absorto na contemplação de tão sublime beleza, atingi o ponto no qual me deparei com sensações celestiais. Tive palpitações, minha vida parecia estar sendo drenada...”.

Toda a beleza de Florença

Beleza para todo lado


Florença respira arte
É uma brincadeira, claro, não cheguei nesse nível, mas por via das dúvidas, naquele dia, com exceção da pequena exposição temporária La Belleza Divina, que vimos no Palazzo Strozzi, passamos o dia perambulando por Florença, sem nenhum objetivo específico, a não ser caminhar pela cidade, senti-la e deixar que ela entrasse por nossos poros, deixando nossa energia por ali, descansando da quantidade imensa de beleza, arte e informação histórica que tínhamos recebido até então.

Devo dizer, no entanto, que mesmo somente flanando pelas ruas e piazzas da cidade, nossos sentidos continuaram sendo estimulados, continuamos expostos à intensidade artística desta cidade, impedindo o relaxamento completo, pois esta velha senhora tem muita história para nos contar e o faz a todo instante, mesmo sem pedirmos e para uma pessoa curiosa e sedenta de entendimento e conhecimento como eu, foi impossível negar o que ela me ofereceu. 

O dia começa sua despedida

As cores da cidade vão mudando 

Com qualquer luz a cidade se sobressai

Obra de arte

As luzes da cidade começam a acender

O entardecer em Florença é mágico

Absorvendo e observando

O dia deu Adeus
O entardecer em Florença é muito bonito: as luzes naturais vão mudando de cor enquanto as luzes da cidade vão se acendendo e o cenário que se forma junto com os monumentos são uma obra de arte.

A temperatura caía rapidamente, mas nós nem ligávamos. Andamos de mãos dadas, namoramos, aproveitamos aquele cenário encantador até o sol se por completamente e então penetramos na noite Toscana, sem nenhuma vontade de entrarmos em qualquer lugar.

O rio Arno, enfeitado com os reflexos dos edifícios fica especialmente interessante no crepúsculo. Reflexos na água sempre me fazem lembrar as obras do pintor holandês Vermeer. 

A Ponte Vecchio mergulhada na noite

A Ponte Vecchio muda sua atmosfera com a chegada da noite

Ponte Vecchio em detalhes

Palazzo Vecchio

Piazza della Signoria

Netuno e suas ninfas
Hércules e Caco por Baccio Bandinelli

Cosimo I montado em seu cavalo
Atravessamos novamente a Ponte Vecchio, que neste momento continuava movimentada. A ponte mergulhada na noite tinha outra atmosfera, outro clima e a vista que ela nos proporcionou nesta hora, com a cidade expandida diante do rio, foi magnífica.

Caímos então na icônica Piazza della Signoria, um dos clássicos de Florença, palco de sua vida social e política séculos atrás, mas que não se perdeu na noite dos tempos, ao contrário, continua muito viva, embora com significados distintos em tempos atuais.

Aqui está mais uma réplica do Davi de Michelangelo, a Fontana di Netuno (1575), onde o deus do mar está cercado por ninfas, o Marzocco: uma cópia (o original está no Bargello) do leão heráldico (nobre, aristocrático) de Florença, símbolo de força, poder e prestígio para a República Florentina, esculpido por Donatello, O Hércules e Caco de Baccio Bandinelli, além da Loggia dei Lanzi e o Palazzo Vecchio, onde ainda funciona a prefeitura da cidade. Aqui também está uma estátua de Cosimo I montado em seu cavalo.

Quando chegamos ainda havia muitos turistas. 

Loggia dei Lanzi

O Rapto das Sabinas

Menelau e Patroclo

Via dei Calzaiuoli

Via dei Calzaiuoli

Via dei Calzaiuoli
A Loggia dei Lanzi guarda esculturas preciosas. A minha preferida é o Rapto das Sabinas de Giambologna. Essa história muito antiga foi retratada por muitos artistas ao longo dos séculos, através de pinturas e esculturas e são sempre imagens muito fortes, intensas e tensas.

Os Sabinos eram um povo vizinho a Roma. Quando a cidade foi fundada, Rómulo precisava de mulheres para formar seu próprio povo e assim sequestraram as Sabinas. Os homens, logicamente, foram atrás de suas mulheres, houve guerra, mas no final selaram a paz sendo essa é a origem dos romanos.

Reza a lenda que apesar do rapto não houve abuso sexual a nenhuma delas e que Rômulo implorou que elas ficassem, mas deu a opção delas irem embora.

Há outras esculturas interessantes, fortes, que contam suas próprias histórias como Hércules e o Centauro Nesso (1599), onde Giambologna mostra como Hércules matou Nesso quando ele tentou abusar de sua segunda esposa, Deianira. A escultura de Menelau e Patroclo onde Patroclo, o melhor amigo de Aquiles, que é morto em batalha por Ettore tem seu corpo carregado por Menelau, além de Perseu de Cellini (1554) cuja presença ali lembrava aos inimigos de Cosimo I qual seria seu destino.

A Loggia dei Lanzi (1382) leva o nome dos guarda-costas de Cosimo I que ficavam abrigados na loggia.

Deixamos a Piazza della Signoria para trás e fomos passear na Via dei Calzaiuoli: esta rua é particularmente interessante porque mistura lojas chiques e também as moderninhas como a Pylones e igrejas seculares como a Orsanmichele, que era um mercado de grãos e tornou-se igreja no fim do século XIV, início do século XV, além de um discreto comércio de rua. Ela liga a Piazza della Signoria a Piazza del Duomo e estava repleta de pessoas em um interminável vai e vem. 

Turistas encantados e espantados

Duomo

Vendo a vida passar

Spaguetheria e Pizzeria Little David

Gastronomia italiana

Via dei Calzaiuoli

A vida é bela

Cansada mas feliz

Little David ao fundo

Encerrando o dia
Chegamos à praça onde está situado o Complexo do Duomo e ali eu me sentei, nas escadarias da Catedral de Santa Maria del Fiori para apreciar o burburinho. Gosto de olhar as pessoas e de como elas se movimentam, se vestem, se comportam e ali era lugar perfeito para isso, pois há gente de muitas partes do mundo.

Havia um grupo de orientais, empolgadíssimo, tirando milhões de fotos e olhando com expressões espantadas e enlevadas para tudo o que viam. Havia outras pessoas, como eu, vendo a vida passar, à toa. Por mim ficava largada ali por muitas horas, mas a fome bateu.

Escolhemos um restaurante por ali mesmo, uma portinhola, chamado Spagueteria Pizzeria Little David, ao lado da loja Sephora. O lugar com suas paredes amarelas e mil informações decorativas era maior por dentro do que pareceu por fora.

O atendimento foi bacana, a comida estava honesta, o vinho bom. Escolhi uma bruschetta simples, básica e tradicional porque o cansaço (físico e mental) comprometeu o meu apetite. Léo escolheu uma tábua de embutidos, queijos e pães. Após o jantar, só nos restou voltar para o hotel e encerrarmos o dia.