sexta-feira, 6 de maio de 2016

Os Caminhos SECRETOS do Palazzo VECCHIO, Florença:

Palazzo Vecchio
Um dos símbolos do poder em Florença é o Palazzo Vecchio (Palácio Velho) onde ainda funciona a prefeitura da cidade na Piazza della Signoria e está aberto à visitação. Além disso, existe um passeio guiado, que nos leva por caminhos secretos onde percorremos partes do palácio não acessíveis de outra maneira.

Dois dias antes nós passamos bem cedo pela bilheteria do Palazzo Vecchio e reservamos nossos tickets para o tour guiado por seus recônditos. Cerca de meia hora antes, no dia da visita, nos apresentamos no mesmo local, pagamos e iniciamos nossa viagem pelos misteriosos caminhos do velho palácio medieval. 

A Torre Arnolfo e os brasões - Palazzo Vecchio

O Palazzo Vecchio iluminado

Dante com seu traje de priori explicando A Divina Comédia no Duomo de Florença
O Palácio foi concluído na primeira metade do século XIV com a içagem de um enorme sino até o alto da torre, utilizado na convocação da população para reuniões ou fazer anúncios de incêndios, invasões inimigas ou qualquer outra catástrofe que precisasse ser divulgada.

A torre, chamada Torre de Arnolfo, que coroa o Palazzo (1310) e foi erguida quando ele estava quase finalizado, possui 94 metros e um vão onde prisioneiros foram mantidos, entre eles Cosimo di Medici, il Vecchio, quando voltou do exílio em 1433.

Embora em sua face principal esteja uma das réplicas do Davi de Michelangelo, além de Poseidon com suas ninfas e Hércules e Caco, o velho palácio se sobressai, se impõe sobre a piazza e sobre seus visitantes. Seu formato é muito particular, específico e sua beleza simples, sem ser modesta, é indiscutível.

Os nove brasões que ostenta em sua fachada contam, de certa forma, a história da cidade, pois ali estão representados, entre outros símbolos, o povo florentino, o típico lírio da cidade adotado pelos guelfos, o laço dentre Fiesole e Florença e a fidelidade ao papado.

No início do século XIV o Palazzo Vecchio, que já teve vários nomes, passou a ser sede do Conselho de Prioris, que governava Florença à época. Os membros eram escolhidos a cada dois meses, por sorteio entre as famílias proeminentes da cidade, por bairro, como Santa Maria Novella e Santa Croce.  

O Palácio ficou conhecido com velho depois que Cosimo I trasladou sua corte para o Palazzo Pitti, em 1565, mas por muitos anos o Vecchio foi sua residência onde ele fez modificações e promoveu ampliações para atender as necessidades da corte. 

Dante Aliguieri foi priori em 1300, por isso vemos tantas imagens do poeta vestido com a túnica vermelha, o traje típico dos prioris.

Aqui iniciamos a visita guiada pelos caminhos secretos do Palazzo Vecchio

É possível identificar claramente as diferenças de estilo feitas pelas ampliações ao longo dos anos.
A Casa dos Medici exerceu forte poder político e econômico na República de Florença. Por isso eu estava muito ansiosa com a visita pelos caminhos secretos, que começou do lado de fora do palácio, com nosso guia contando a história da cidade em espanhol.

Além de Léo e eu havia um jovem casal catalão. O passeio completo pelos caminhos secretos leva cerca de uma hora e meia e depois ficamos livres para percorrer o resto do palácio, que é grande e abriga um acervo de tamanho significativo.

As ampliações feitas no Vecchio ao longo dos anos e as diferenças de estilo são marcantes, especialmente em sua face direita (para quem está de frente para o palácio).

Após uma breve explicação sobre a estrutura política da época medieval e renascentista, nós entramos por uma pequena porta usada para ter acesso à Escada do Duque de Atenas e então aos demais espaços secretos do palácio.

Essa porta foi construída a mando do Duque de Atenas Walter de Brienne, para fugas emergenciais. Ele foi chamado à Florença em um momento de crise, pelos prioris, mas deu um golpe e transformou-se em déspota, sendo expulso um ano depois. 

Studiolo di Francesco I

Detalhe do teto: afrescos de Vasari

Enquanto descobríamos os segredos do Palazzo Vecchio, o dia ia se despedindo em Florença

Detalhes do teto no Studiolo di Francesco

Passagens secretas
O percurso secreto nos leva a um conto de fadas cheio de passagens escondidas e histórias de traição e morte. Passamos pelo Tesoretto, o pequeno e estreito quarto de Cosimo I, primeiro grão-duque com poder politicamente reconhecido, onde ele guardava sua coleção particuar e por onde entramos por uma porta disfarçada e saímos por outra.

Somos conduzidos até o Studiolo di Francesco I, filho de Cosimo I, um dos meus ambientes favoritos, com seu formato de baú ou talvez de uma caixa de joias, o que faz todo o sentido.

Quando Francisco morreu, seu estúdio foi completamente desmantelado, os afrescos levados para outros locais como o Palazzo Pitti. Especula-se que os governantes de Florença queriam apagar a sua existência por considerarem sua influência nefasta para a cidade por sua pouca afeição e competência à política, exatamente o oposto de seu pai.

Ele foi casado com Joana de Habsburgo, mas foi amante de Bianca Cappello com quem veio a casar-se depois de ficar viúvo, mas essa relação trouxe muitos problemas, uma vez que ela não era bem quista pelos florentinos, causando o assassinato de Francisco I por seu irmão.

O segundo Grão Duque era um sonhador, introvertido, amante das artes, da alquimia, da arquitetura e da decoração e sua personalidade está impressa e marcada em seu estúdio tornando este ambiente magnífico.

A entrada para o estúdio era secreta e nele estão muitos e maravilhosos afrescos criados pelo gênio Vasari onde o Grão Duque guardava os seus tesouros (pedras, conchas, cristais e outros objetos da natureza), também em compartimentos secretos que nos passam completamente despercebidos até o guia nos mostrar, nos enchendo de prazer. Em um dos afrescos Francesco I está representando como alquimista. Acredita-se que ele passava muito tempo enfurnado nesse espaço.

Séculos depois estudantes encontraram a correspondência entre Vasari e o arquiteto do quarto e assim puderam recuperar os quadros (que escondiam os compartimentos secretos e seus tesouros) e reconstruir seu estúdio, onde provavelmente há equívocos quanto à ordem e disposição, mas que não compromete em absolutamente nada a extraordinariedade do ambiente.

Os afrescos remetem aos principais elementos da natureza: fogo, ar, água e terra. Como alquimista ele acreditava que a natureza criava e que o homem com sua engenhosidade aperfeiçoava.

Apesar de ter sido um amante e incentivador das artes, um apreciador das belezas do mundo, este homem foi um déspota, agindo muitas vezes de maneira arbritrária e talvez por tanta controvérsia, ele tenha despertado o meu interesse. 

Complexa estrutura do teto do Palazzo Vecchio

Complexa estrutura do teto do Palazzo Vecchio
Salão dos Quinhentos visto de cima
O passeio pelos caminhos secretos termina no telhado acima do Salão dos Quinhentos, do século XV, projetado por Vasari: uma complexa e pesada estrutura de madeira que se ajusta e entre outras coisas possui um encaixe para que seja flexível e suporte terremoto, umidade e o passar dos anos.

Foi uma visita espetacular e minha única crítica é que foi muito rápido. Gostaria de ter tido mais tempo para olhar e absorver os detalhes. De qualquer forma ainda tínhamos muita diversão pela frente: os ambientes nada secretos do Palazzo Vecchio.