quarta-feira, 25 de maio de 2016

Palazzo DAVANZATI, sorvete, Piazza della SIGNORIA e o Ospedale degli INNOCENTI, Florença:


O despertar de Florença

Pelas ruas de Florença

A caminho do Palazzo Davanzati
Sábado em Florença. Acordamos, cedo como sempre, tomamos café da manhã e já ganhamos a rua que estava quase deserta, com poucos transeuntes, alguns corredores e dois padres seguindo seu caminho. Gosto de me misturar às cenas cotidianas de uma cidade, principalmente nas primeiras horas do dia, com ela acordando e o sol começando a lançar seus primeiros raios, pálidos e frios ainda.

Gosto do cheiro de uma cidade que desperta, de seus sons típicos: em Florença havia quase somente silêncio, às vezes quebrado por uma bicicleta passando ou o varrer de chão de algum funcionário de cafeteria. Fora isso, ouvi o silêncio. 


Palazzo Davanzati

Pátio do Palazzo Davanzati

Escadarias que levam ao primeiro andar do Palazzo Davanzati
Nosso fim de semana na cidade renascentista começou com uma visita ao Palazzo Davanzati. Dias antes nós passamos por aqui e reservamos uma hora para o recorrido. A reserva é obrigatória.

O Davanzati é um palácio museu que recria uma típica casa urbana do século XIV: móveis e utensílios estão dispostos em vários espaços. A visita não é guiada, ela é, em verdade, vigiada. Um número limitado de pessoas tem acesso aos diversos ambientes que compõem o Palazzo, onde ficamos mais ou menos livres para ler sobre o que cada um significa em informativos disponíveis.

A guardadora gentilmente, como uma pastora de ovelhas, vai-nos “empurrando” de recinto em recinto. Ainda assim, sem estarmos totalmente livres, ficamos por duas horas no Palazzo Davanzati.  

O pátio do Palazzo Davanzati visto do primeiro andar

Sala Madornale

Buscando informações sobre a sala em informativos disponíveis: em italiano ou inglês

Sala Madornale com outras pessoas no mesmo horário que o nosso

Sala Madornale com suas janelas - recinto mais iluminado do palácio 

Vista desde o Palazzo Davanzati

Janela na sala Madornale que dá acesso ao balde de ferro

Balde de ferro que levava água para todos os andares - luxo da época
Eu não sei do que mais gostei nessa visita, mas foi possível imaginar um pouco do que era viver naquela era e apesar desta casa naturalmente ter pertencido às famílias abastadas (a família de merchants, a Davanzati, a habitou no século XVI) me arrisco a afirmar duas coisas: não eram tempos fáceis e devia fazer um frio glacial no inverno, impossível de ser contido.

Na sala Madornale, a maior sala da casa, aconteciam reuniões: há muitas janelas, contribuindo para ser o ambiente mais iluminado de todos e uma bela mesa pesada no centro da sala.

Dessa sala podemos ver um detalhe curioso: um balde de ferro que levava água (da chuva) para todos os pisos: um luxo imenso para a Florença medieval onde as pessoas conseguiam água nas fontes públicas. 

Objetos e louças do dia a dia

Móveis pesados e decoração exagerada

Sala dos Papagaios

Portas e janelas internas que ligam os ambientes - disposição que chamou minha atenção

Pequenas portas parecendo de um casa de bonecas que ligam ambientes

Baú exposto no Estúdio, com seus detalhes em vinho
Em seguida passamos para a Sala dos Papagaios que leva esse nome por conta da decoração pesada e colorida, com motivos do animal. Sua forma retangular é singular. As portas estreitas e pequenas, assim como as janelas internas chamaram muito a minha atenção. Acho que me remeteram a uma casa de bonecas. 

Ter uma janela que não se abre para fora e sim para outra sala é muito estranho e atraente, assim como as portas que interligam os ambientes formando uma espécie de labirinto. 

O estúdio, o recinto após a Sala dos Papagaios, não tem uma serventia conhecida: não se sabe para que era usado. É uma pequenina sala com um banheiro, algumas obras de arte e um lindo baú em tons de vinho. 

Portas que interligam ambientes

Uma latrina

Tina para banho

Um dos quartos

O berço: sem leveza alguma

Local para rezar

Tentando olhar todos os detalhes

Detalhe da fechadura de uma cômoda

Pés de uma mesa que parecem patas de leão

Outro quarto com suas particularidades, mas tão pesado quanto o anterior
Os quartos são muitos legais de se conhecer e de se estar: amplos, com decoração pesada, exagerada e cansativa, mas, engraçado, um cenário longe de ser opressivo, embora apesar do colorido, tampouco seja alegre, com motivos espalhados por todas as paredes, como brasões diversos, um pequeno local para rezar demonstrando que a(s) família(s) que ali vivia era religiosa, um berço, sem nenhuma leveza ou adorno, tão diferente dos atuais, de nosso tempo.

Os banheiros são interessantíssimos, com a tina para o banho e a latrina minúscula e sem descarga. Definitivamente não eram tempos fáceis. 

A nossa guardadora que ia nos conduzindo, gentilmente empurrando de um ambiente a outro. 

Moedor de grãos e uma vassoura como a das bruxas de contos de fada

Alimento sendo "cozido"

Instrumentos de costura

Soprador de fogo

A cozinha - ambiente mais bacana

Outro quarto

Os telhados de Florença vistos desde o Palazzo Davanzati

Delicados objetos femininos
Acho que o meu lugar preferido, no final das contas, foi a cozinha: os utensílios, o tamanho, a forma como os alimentos eram preparados, tudo era muito diferente (tudo era feito manualmente, artesanalmente), mas o mais curioso era o fato de nessa época, neste tipo de residência, ela se localizar no segundo andar!

Outro fato interessante era que nesse mesmo ambiente, onde se cozinhava, se cozia e costurava. Talvez por ser o ambiente mais quente da casa, por conta do fogo. Foi difícil me tirar daí. Havia muito que ver!

Saímos em mais um quarto, que apesar das particularidades em relação aos outros que vimos anteriormente, era muito similar no excesso de informação decorativa e nos móveis pesados. Apesar disso, os detalhes pareciam ser de suma importância. Tudo parecia ter uma razão de existir, uma formalidade e nenhuma espontaneidade. Nada de almofadas displicentemente jogadas em um sofá. 

Palazzo Davanzati sob a perspectiva do pátio 

No primeiro andar do Palazzo Davanzati que possui o meio oco

Palazzo Davanzati sob a perspectiva do segundo andar

Linda arte toscana
O Palazzo Davanzati é alto e possui formato quadrado com o meio oco, onde podemos olhar o pátio principal ou o céu. Reza a lenda que projéteis eram atirados nos visitantes indesejáveis. Visto de cima ou visto de baixo é uma estrutura fascinante, vertiginosa até. 

No final da visita em uma pequena sala que passa quase despercebida, há uma exposição de objetos fabricados à época na região, como belíssimas rendas.

Foi uma visita significativa para entender um pouco como era a vida na época do Renascimento (pelo menos de uma parte da população, ainda que uma parte minúscula), na época em que Rafael e Brunelleschi viviam e faziam arte em Florença. 

Sorveteria / cafeteria

Bolo no palito

Ruas cheias de turistas e moradores

Ponte Vecchio cheia
Saímos para a luz do dia e passamos pela Ponte Vecchio que estava apinhada de gente: paramos para fotos – essa ponte pede por fotos o tempo inteiro. Dela temos paisagens belas e que mudam a cada hora do dia por causa da luz.

Havia um rapaz expondo no chão suas pinturas. Um desavisado, desses que não se preocupam em olhar ao redor e acham que estão sozinhos no mundo com seu umbigo e sua arrogância individualista, passou por cima, pisando nelas. O artista ficou tão desolado, tão sem ação diante de tal hostilidade, que eu quase choro com ele; ou pego o sujeito mal educado pelo colarinho e jogo para nadar no Arno. 

Resolvi tomar um picolé na Stickhouse (gosto bem mais que de sorvete) e escolhi um que se chamava Stick Merenda: um bolo fofinho coberto com crunchy chocolate: era gostoso, mas um pouco seco. 

A Stickhouse, com uma variedade grande de bolos no palito, além de picolés tradicionais tem dois endereços: Via Santa Maria 33 R e Via A. Giacomini, 9 A. Eu gostei de ter conhecido. 

Variedade grande de sabores 

Léo, o sorvete e o Palazzo Vecchio na Piazza della Signoria

Piazza della Signoria - mais cheia nos fins de semana

Poseidon e suas ninfas

Chiesa Orsanmichele
Léo, ao contrário de mim, curte um sorvete e paramos em uma sorveteria perto da Piazza della Signoria, com a variedade absurda de sabores, típico nas sorveterias italianas. Como usualmente ele faz, levou meia hora para escolher e me contou depois que estava delicioso.

Já que estávamos ao lado, fomos ver o movimento do fim de semana na Piazza della Signoria. Estava cheia de turistas, com câmeras e celulares tirando fotos para todo lado e africanos vendendo objetos diversos. Pelo menos aqui, diferente do que encontrei em Milão e Veneza, eles não foram agressivos na abordagem. Deixamo-nos ficar ali por um bom tempo. Para que a pressa? Era sábado, afinal!

Entramos na Chiesa (igreja) Orsanmichele (seu nome vem do Orto di San Michele - jardim monástico desaparecido há muito tempo): pequenina, com afrescos no teto, possui ao fundo um bonito tabernáculo gótico esculpido em alto relevo. Há colunas quadradas e vitrais que são o contraponto dos outros elementos em tons pastel. Entrada gratuita. Um antigo mercado funcionava aqui, no século XIV, e não é permitido tirar fotos. 

Piazza della Santissima Annuziata

Ospedale degli Innocenti

Ospedali degli Innocenti

Bebês que adornam a fachada

Local onde os recém-nascidos eram deixados
Seguimos para a Ospedale degli Innocenti, o primeiro orfanato da Europa, inaugurado na primeira metade do século XV e tem esse nome em uma referência ao Massacre dos Inocentes de Herodes. É uma obra arquitetônica de Filippo Brunelleschi. 

Eu estava muito curiosa por essa visita, mas qual não foi minha decepção quando a mocinha na recepção nos disse que boa parte estava em reforma. Não quis entrar, então. Ainda hoje funciona um orfanato.

Na fachada é possível ver bebês enrolados em panos azuis e fitas brancas: não sei a que a imagem desejava ser remetida, a alguma coisa cativante imagino, mas ao contrário disso, achei aqueles bebês amarrados meio macabros, deprimentes, representando em minha opinião abandono e não acolhimento.

Apesar da tonalidade cinza, a fachada com os arcos é muito bonita. Do lado esquerdo está a janela da gratidão, onde os recém-nascidos eram deixados: uma passagem estreita para que crianças ou mesmo bebês maiores não pudessem ser deixados ali.

A janela mudou de lugar diversas vezes até o local atual no século XVII e deixou de funcionar no século XIX. Um dia eu ainda volto à Florença para visitar o Ospedale degli Innocenti.