segunda-feira, 23 de maio de 2016

PISA: o almoço e a CIDADE:


Via S. Maria
Deixamos o Campo dos Milagres (onde está a Torre de Pisa) para trás:a multidão de turistas também ficou para trás. Seguimos pela Via S. Maria em busca de um lugar para comer: a rua estava deliciosamente tranquila.

Passamos por vários restaurantes, mas por alguma razão desconhecida eu não simpatizei com nenhum deles, então seguimos caminhando, até que me deparei com o Bar & Food 62, que em quase tudo se parecia com os outros, mas que me encantou e me atraiu. 

A entrada: Bruschetta

Léo - a expressão da felicidade

Almoço ao ar livre com uma bela refeição, deliciosa taça de vinho e temperatura gelada: gosto muito disso tudo!

Comida italiana simples e descomplicada

Bar & Food 62

Enquanto almoçamos, nos deixamos levar pelos detalhes da arquitetura de Pisa

Bar & Food 62
Mesmo Pisa estando gelada, a temperatura devia estar próxima a zero grau, optamos por uma mesa na área externa pois não é sempre que tenho a chance de estar ao ar livre. Escolhemos o menu do dia: entrada, prato principal e uma taça de vinho.

O lugar era simples, sem nenhuma ostentação, o garçom era muito simpático, risonho e arriscou palavras em português. Explicou-nos que Pisa estava vazia por conta da época, pois já estava iniciando a baixa estação. Fiquei imaginando o que não deve ser a loucura daquela cidade, no Campo dei Miracoli, nas médias e altas estações!

A comida, básica, descomplicada, sem nenhum requinte, longe da gourmetização que parece ter tomado a gastronomia moderna de assalto, estava deliciosa. O vinho maravilhoso! Estar sentada, ao ar livre, vendo o movimento das poucas pessoas na via, olhando a arquitetura pisana... Ah! Isso definitivamente não tem preço e me faz muito feliz. 

Pisa e seus sinais do tempo

A linda e desgastada arquitetura pisana

A ação do tempo que confere beleza
Tínhamos tempo ainda e fomos descobrir Pisa. A cidade pode ter sido fundada no século V a. C., mas não há muito certeza a respeito da data. O que se sabe é que Pisa foi poderosa: por conta de seu porto, onde era possível atracar muitos navios, foi base naval de Roma. Nos séculos XI e XII virou potência e daqui partiram importantes expedições para lutar contra os muçulmanos na Calábria, Sardenha e norte da África.

Dominou, junto com as grandes repúblicas italianas: Veneza, Gênova e Costa Almalfitana, o comércio no Mediterrâneo. A Pisa medieval era próspera economicamente e cheia de vitalidade cultural: turcos, africanos e muitos outros povos passaram por seu porto nessa época.

Entramos e saímos de ruas e de praças buscando os sinais da Pisa medieval, influente, importante e não foi nada difícil encontrar. Claro que os sinais do tempo, dos séculos, também estavam em toda parte, mas nada disso impediu o esplendor dessa cidade que conseguiu de alguma forma imprimir traços de modernidade aqui e acolá, mantendo-se viva. 

Chegando na Piazza Cavalieri

Piazza dei Cavalieri

Palazzo dell`Orologio construído no lugar da torre da fome

Palazzo dei Cavalieri reformado por Vasari
Chegamos à Piazza dei Cavalieri onde está o Palazzo dell`Orologio, construído no lugar de uma torre (torre da fome), na qual em fins do século XIII, o Conde Ugolino della Gherardesca, filhos e netos foram presos por suspeita de traição.

Meses depois os pisanos lacraram a torre e jogaram a chave no rio Arno: em poucos dias todos haviam morrido de fome. Essa passagem é lembrada por Dante no Canto XXXIII do Inferno (círculo onde estão os condenados por traição aos hóspedes) em seu excepcional Divina Comédia.

“Atendendo ao pedido de Dante, o conde Ugolino conta como, traído pelo arcebispo Ruggieri, foi por ele detido e, com seus dois filhos e dois netos, encerrado na cela de uma torre em Pisa até morrerem de fome.

Saibas então que eu fui conde Ugolino,
E, co´o arcebispo Ruggieri, que é este,
por que é meu vizinhar tão inopino,

Como, por sua perversa astúcia, e preste
A nele confiar eu fui detido
 e morto, não precisas que eu ateste,

mas, da crueldade que sofri, sabido
não podes ter e, agora ao conhece-la,
irás julgar como fui ofendido.

Estreita fresta, e bem alta, na cela
Que é por mim que ´da Fome`ora se chame
E ainda muitos terá encerrados nela..."

A Divina Comédia - tradução de Ítalo Eugênio Mauro

Também nesta praça está o Palazzo dei Cavalieri que, assim como a piazza, foi remodelada por Vasari. Hoje funciona no antigo palácio uma das universidades de maior prestígio da Itália: a Scuolo Normale Superiore

Marcas que significam antiguidade 

Vimos muitos jovens em Pisa

Borgo Stretto

Borgo Stretto

Borgo Stretto

Estátua de Garibaldi

Parte de Pisa que me lembrou Florença

Pisa e suas semelhanças com Florença

Lembra Florença mas a atmosfera é outra

O Rio Arno 

Léo caminha às margens do Arno
Continuamos percorrendo as vias de Pisa notando ainda seus sinais e sua vitalidade. Vimos mais jovens em Pisa do que em Siena e Lucca e acho que isso contribuiu para dar a ela uma vivacidade muito latente, muito perceptível, palpável até. Uma alma que não envelhece, mas que não usa de artifícios para esconder suas rugas e traços senis.

Andamos por umas das principais e mais caras avenidas da cidade, a Borgo Stretto, onde foi muito marcante o contraste entre o antigo e o moderno: prédios seculares, outrora contemporâneos, estabelecimentos centenários, com interiores reformados abrigando charmosas cafeterias e lojas deste século, muito atuais.

Encontramos uma estátua de Giuseppe Garibaldi, que lutou na Itália por sua unificação e no sul do Brasil na Revolução Farroupilha. Atravessamos o rio Arno e esta parte de Pisa lembrou-me muitíssimo Florença: a mesma estrutura, cores semelhantes, paisagem similar, mas a atmosfera era outra, completamente diferente, não menos atraente, não menos encantadora. 

Corso Italia

Corso Italia

Expresso e biscoitinhos de Apricot: gratidão aos deuses italianos

Gambrinus

Stazione Pisa Centrale

Quadro de partidas

Para quem não se sente confortável com as máquinas, há a opção do guichê

As máquinas vermelhas para compra dos bilhetes

Até qualquer dia Pisa
Já estava escurecendo e era hora de voltar para Florença, mas antes eu estava desejando tomar um café e comer um brioche de apricot (damasco). Entramos em várias cafeterias e nada! Eu já estava desistindo do doce quando descobrimos o Gambrinus (Viale A. Gramsci 2 56125) onde os expressos chegaram acompanhados de biscoitinhos de apricot: agradeci aos deuses italianos por aquela benção. 

Comemos em pé no balcão e quando saímos já era noite e Pisa estava cada vez mais gelada. Fomos para a estação de trem Stazione Pisa Centrale (nós chegamos na Stazione Pisa S. Rossore),compramos os nossos bilhetes mais uma vez nas mesmas máquinas vermelhas dispostas na estação, em dinheiro, usando a opção de idioma, inglês.

Validamos nossos bilhetes na plataforma, entramos no trem, escolhemos nossos assentos (livres), relaxamos e aproveitamos nossa viagem de pouco mais de 1 hora de volta à Florença, encerrando assim o dia.