sexta-feira, 27 de maio de 2016

Si FECE Carne e Il BARGELLO, Florença:


A nossa manhã de sábado em Florença começou com uma visita ao ótimo Palazzo Davanzati, para conhecer um pouco de como vivia uma família abastada na Florença medieval, uma parada na Piazza della Signoria para um picolé e olhar o movimento que estava intenso, entrar na pequenina Chiesa Orsanmichele, caminhar até a Piazza della Santissima Annunziata onde está o Ospeadale degli Innocenti, o primeiro orfanato criado na Europa, com sua fachada cheia de bebês amarrados em lencois azuis. 

Cardápio escrito à mão

O Caffè Il Sole: cardápio exposto na fachada

Lasanha de carne e queijo

Almoço ao ar livre? Adoro!

Tiramisù
Fomos almoçar. Andamos sem rumo até que uma portinhola com poucas e apertadas mesas na entrada chamou nossa atenção. O Cafe Il Sole (Via Guelfa, 25) foi mais uma decisão gastronômica acertada, mais um lugar simples, com cardápio escrito à mão, atendimento simpático e comida básica e deliciosa 

Escolhi uma lasanha de carne e queijo (lasagne al ragu) e uma taça de vinho. De sobremesa, biquei o enorme tiramisù (muito bom) que Léo pediu. 

Basílica de San Lorenzo

O pátio da Basílica de San Lorenzo

A exposição temporária Si Fece Carne aconteceu no subsolo da Basílica de San Lorenzo
A Basílica de San Lorenzo era a igreja da família Medici: Brunelleschi a reconstruiu em estilo clássico renascentista e Michelangelo, quase 1 século depois, apresentou novos projetos para a fachada. Para entrar na igreja é necessário pagar.

Nosso objetivo em San Lorenzo, entretanto, era outro: visitar a exposição temporária Si Fece Carne (Ele foi feito carne), com diversos elementos sacros, de artistas variados, expostos. Como já mencionei aqui no blog outras vezes, uma cidade é viva e além dos seus pontos turísticos tradicionais, quase sempre tem alguma outra coisa acontecendo.

Sobre a exposição eu me perguntei: a arte conversa com a fé? Elementos contemporâneos contrastando com lápides do século XVIII e XIX nos colocam no limbo, na fronteira entre passado e presente onde as imagens conversam entre si, se entendem, se entrelaçam.

Identificamos elementos da fé católica facilmente por que constantemente olhamos para o passado da humanidade ou por que eles não mudaram ao longo dos dois milênios de história que nos separam das pessoas aqui enterradas? 

No final das contas não há nada de novo e, no entanto tudo parece novo. É fácil perceber quando se está no passado e quando estamos no presente, ainda que os elementos sejam repetidos constantemente.

No tempo que passei na Toscana tive a certeza de que a fé pode (e assim o faz) inspirar a arte e essa mostra temporária confirmou isso. 

Para entrarmos e sairmos da mostra nós passamos pelo túmulo de Donatello.

A praça do Duomo lotada no sábado

A orla do rio Arno movimentada no fim de tarde

As luzes deixam Florença incrível

Florença produz imagens que nunca cansam a vista ou a alma

Florença é bonita sob qualquer ângulo

Paleta de cores

Cenário soberbo

O entardecer em Florença

Sob o céu da Toscana

A parte alta de Florença ao fundo com a Ponte Vecchio na parte inferior
Fomos fazer hora passeando pela orla do Rio Arno, sem rumo, enquanto o dia ia dizendo adeus. A ideia era visitar o museu Il Bargello à noite. Sônia, do posto de informações turísticas, assim nos orientou. Então, enquanto a noite não chegava, nós andamos.

Eu sei, novamente. Fizemos isso inúmeras vezes, em horários distintos e eu meu apaixonei de novo e de novo e de novo e novamente e uma vez mais por Florença. Essa parte da cidade é repleta de encantamento, de beleza. As luzes naturais e depois as artificiais que incidem sobre a cidade, revelando o reflexo de sua arquitetura sobre o Arno formam um cenário soberbo.

Não sei por quanto tempo nós andamos, porque é fácil esquecer do tempo inserido naquele contexto. Sei que fomos para lá e para cá, nos misturamos aos turistas que faziam o mesmo que nós, aos moradores que voltavam do trabalho ou que estavam aproveitando o fim de semana, aos ciclistas e corredores que começavam suas atividades físicas do dia. Vimos o por do sol sob diversos ângulos antes de entrarmos no Il Bargello.

Il Bargello

Il Bargello

Oceano de Giambologna

Il Bargello

Manufaturas variadas expostas em diversas salas
Enfim a noite chegou e nos dirigimos à bilheteria e compramos os ingressos: eram 19:30. Uma senhora que limpava a sala nos ouviu falando, deu risada e ajustou nossa pronúncia a respeito do nome do museu. Mandou que repetíssemos como ela havia nos ensinado. Como bons alunos, rimos e falamos da forma correta. Agora vocês podem entrar, disse ela rindo mais uma vez!

O Bargello perde em importância apenas para a Galleria degli Uffizi: o acervo, disposto em dois andares, era muito maior do que eu pensava. Composto por maravilhosas esculturas renascentistas, de artistas famosos como Donatello, o museu abriga ainda uma coleção imensa de objetos, manufaturas diversas, de muitas nacionalidades, além da italiana, como a francesa, para todo uso, que retratam um pouco o dia a dia dos moradores antigos da cidade.

Pavimento do século XVI
Taça - arte toscana


Aldrava

Colheres de todo tipo do século XVI

Cosimo I de Benvenuto Cellini

Baco de Giambologna

Firenze vittoriosa su Pisa de Giambologna
Confesso que não dei conta de absorver tudo, algumas informações se perderam em minha mente, como bolhas de sabão, enquanto outras agarraram toda a minha atenção como as louças e os pavimentos ornamentados. Cálices e aldravas suntuosas. Colheres.

Já com as esculturas eu gastei um tempo enorme buscando olhar cada detalhe possível: elas eram enérgicas, vívidas. O retrato de Cosimo I, esculpido por Benvenuto Cellini, mostra toda a sua força: exatamente como eu o imaginava por tudo o que li a seu respeito. 

O Baco, de Giambologna parecia dançar. E ele era feito de bronze! Aliás, eu descobri este artista e me apaixonei. Sua Firenze vittoriosa su Pisa, comissionada pelo Salão dos Quinhentos para o casamento de Francesco de´Medici, é fabulosa. 

Baco de Michelangelo

Brutus de Michelangelo

O acervo do Il Bargello está disposto em dois andares 

Davi de Donatello

Davi de Donatello

Salões grandiosos do Il Bargello abrigam lindas esculturas renascentistas
O Baco de Michelangelo é mais pesado e menos serelepe que o de Donatelo. Parece mais com o Dionísio de meu imaginário. O Brutus dele, no entanto, me pareceu mais suave e bonito, diferente de como eu idealizo o militar romano, um dos assassinos de Júlio Cesar.  

Em relação ao personagem bíblico Davi, mais uma vez Donatello e Michelangelo tem visões distintas: até os momentos são diferentes. Donatello retrata o herói claramente depois da luta vencida, com Golias a seus pés, mas ainda assim ele parece mais delicado. Ou será relaxado em relação ao Davi de Michelangelo, que parece tenso com a batalha que está por vir e assim ganha uma aparência mais forte? Além do mais o Davi de Donatello está vestido.

Mas o artista também esculpiu um Davi nu, em bronze. O que surpreende é que este Davi parece ainda mais jovem e delicado.

Imagem antiga do Bargello

O pátio do Bargello

Il Bargello 

Os afrescos na Capela de Maria Madalena

O segundo andar do Bargello

Sensação de estar em um castelo sob o belo céu da Toscana

Il Bargello
Il Bargello é gelado
O edifício teve sua construção iniciada em 1255, em forma de fortaleza onde inicialmente funcionou a prefeitura: foi o primeiro palácio púbico de Florença. Posteriormente foi prisão e residência do comandante da polícia, il Bargello (o xerife), de onde vem o nome do museu.

Até 1786 execuções eram realizadas no pátio do Bargello, até que a pena de morte foi abolida e os instrumentos de tortura queimados no pátio. Na segunda metade do século XIX, foi inaugurado como museu. O prédio foi vítima de incêndios (1332), inundações (1333) e ataques (1378) sendo necessário restaurá-lo inúmeras vezes. 

Dentro do que foi possível, na restauração concluída em 1865, Fracesco Mazzei, o responsável, buscou manter a aparência original do Bargello, apagando as referências na infraestrutura de outros séculos. 

Na Capela de Maria Madalena, erguida em 1280 durante a expansão do prédio, encontramos restos de belos afrescos.    

Il Bargello é belíssimo e me senti em um castelo de verdade. A atmosfera noturna combinada com o clima gelado deu um ar ainda mais mágico, de pretérito, de antiguidade ao local. Não estava muito cheio e a tranquilidade com que pudemos correr as diversas salas, fez diferença na visita que teve um ar nostálgico, como se os fantasmas dos que aqui viveram antes de nós, estivessem nos acompanhando.

A mim pelo menos, aquele lugar pareceu extraordinário. Atualmente ele reflete apenas o lado bonito de sua existência, das fases de sua vida, que sobreviveram às lágrimas, ao sangue. Manteve apenas a beleza e os risos.

Nós permanecemos no Bargello por quase 3 horas e entre outros mil pensamentos, eu fiquei imaginando como as pessoas naquela época conseguiam suportar o frio. O predio é gelado!