sábado, 18 de junho de 2016

A ARTE de Viajar:


Eu posso afirmar com muita convicção que sou uma viajante que se divide entre antes e depois dos 15 dias que passei no Japão.

Acho que antes mesmo de me entender por gente eu já viajava. Culpa de meus pais que gostavam de sair por aí, muitas vezes sem roteiro determinado, e sempre colocavam a mim e a minha irmã debaixo do braço e nos levavam com eles.

Eu cresci, fiz muitas outras viagens: com eles e com ouras pessoas até que encontrei Léo, meu companheiro de peregrinação pelo mundo, há anos, perfeito para mim, meu número. Ao longo de tantos anos com o pé na estrada, visitando tantas e distintas cidades, eu percebi que viajar é uma arte que se aprende viajando.

Viajar não deixa de ser um processo de autoconhecimento, de perceber aquilo que nos motiva, aquilo que buscamos e principalmente o impacto que sair de nossa zona de conforto nos causa. Precisei acumular muitos quilômetros para me transformar na viajante que sou hoje e minha linha divisória foi o Japão.

Cada viagem tem um lugar especial em meu álbum de memórias afetivas, pois cada uma teve seus encantos e particularidades, mas algumas são mais especiais que outras por diversas razões. Entretanto, os 15 dias que passei no Japão revolucionaram minha maneira de viajar. A razão? Sua cultura, absurdamente distinta da nossa.




Antes de viajar para a terra do sol nascente, eu era uma viajante ansiosa, acelerada, impaciente. Além disso, buscava essencialmente a beleza dos lugares.
  
O Japão mudou drasticamente meu ritmo: nessa viagem eu tive que reaprender a viajar, pois a comida em nada lembrava a nossa, nem mesmo as que os imigrantes japoneses servem por aqui. Tive que me adaptar, assim como em relação à comunicação, onde nosso alfabeto é diferente e nossos gestos não funcionam. Tive que reaprender a “falar”. Tudo isso demandava tempo e paciência.

No Japão aprendi a apreciar mais cada momento, viver mais cada lugar em vez de sair desesperada querendo conhecer todos os museus e pontos turísticos, porque tudo era tão incomum e distinto do que estava acostumada, que me perdia constantemente em contemplação: das pessoas, dos edifícios, das ruas, da dinâmica da cidade.

Eu descobri que um país é muito mais que seus highlights: é uma mescla de muitas coisas que formam a energia de um lugar e aprendi a ter olhos de ver.




Ficávamos horas pelas ruas olhando as pessoas, como se vestiam, como se comportavam: era tudo tão, mas tão diferente! Aqui devo dizer que eu também despertei a curiosidade deles, delas especialmente: eu era um ET, um ser completamente estranho com minha calça jeans, meus olhos claros e meus cabelos loiros.

Subi e desci as ruas de Kioto, Yokohama, Nagoya, Toyota e Tóquio vezes sem conta. Mais tarde, em outras cidades do mundo, essa coisa de caminhar sem rumo pelas ruas observando as pessoas, se tornaria um hábito.

Lutei valentemente para me adaptar àquela culinária de cores, sabores, aromas e texturas esquisitas. Não foi fácil! Foi uma verdadeira aventura gastronômica e experimentar os sabores de uma região tornou-se um vício.

Léo e eu somente comíamos em restaurantes que algum guia tivesse indicado, mas como achar as ruas japonesas, com aqueles caracteres que não nos diziam nada?!

Atualmente entramos em qualquer restaurante que nos atraia, que nos chame. Deixamos os sentidos nos guiarem, sem medos, sem receios. Queremos ser surpreendidos.

No Japão, eu tive que me reinventar para conseguir me comunicar: os idiomas que eu falava eles não entendiam e meus gestos, que eu considerava universais, não funcionavam. Quando eu relaxei algum tipo de magia aconteceu e simplesmente a comunicação fluiu.

Hoje, em qualquer lugar do mundo, sei que a língua não é um empecilho. De alguma forma nos adaptamos.

Em Takayama, durante uma visita a uma casa museu, a senhora que tomava conta do lugar, se aqueceu no fogo ao meu lado. Conversamos: eu falava em um português regido por minhas mãos e ela um japonês super comedido: discutimos o frio, a geografia de nossos países – mágica pura.

Isso sem falar na surpreendente arquitetura do país, onde o muito moderno convive em perfeita harmonia com o muito antigo, sem necessariamente ter como parâmetro a beleza. A partir daí comecei a perceber o quanto edifícios podem dizer de uma cidade, de sua história e de seus habitantes. Hoje meus olhos buscam por essa identidade.


Despi-me de preconceitos e de certezas: eu achava que conhecia a respeito do povo e culturas japonesas. Não conhecia e aceitei que nós turistas, nunca vamos conhecer profundamente uma cultura. Hoje, eu respeito outras formas de vida e acho a pluralidade dos mundos uma coisa fascinante. Não me atrevo mais a julgar ou criticar como cada povo escolheu viver.

Gastei tanto tempo com coisas pequenas como sentar em uma cafeteria em Takayama, tomando chá, comendo bolo e olhando a neve cair que já não tenho pressas, agonias, ansiedades quando estou com o pé na estrada. Procuro hoje sentir, viver, apreender: até hoje consigo lembrar-me do sabor e da textura macia do bolo e da temperatura muito quente do chá.

Hoje eu respeito meu tempo e meu relógio gira em outro ritmo, muito mais desacelerado, porque há muito que olhar e absorver, assimilar e internalizar.

Hoje eu passo um dia inteiro, inteirinho em um museu, sem me preocupar que não conseguirei ver todas as obras ali expostas, então simplesmente me deixo levar, entro em outra dimensão e vivo apenas o presente, o momento em que interajo com cada obra.

Hoje eu me divirto com as dificuldades, com as aventuras, com o diferente. Hoje eu não quero roteiro marcado, engessado. Hoje eu quero um pouco mais de liberdade.

Procuro observar e apreciar o que cada cidade que eu visito tem a oferecer. Hoje eu tenho olhos de ver, aprecio o que houver. Não quero ver tudo, mas o que vir, quero sentir, quero viver e quero guardar.

Hoje as minhas viagens são mais leves porque eu aceito o que uma cidade me oferece tão generosamente. Só não gosto de ficar presa no hotel ou dormindo em euros, dólares, reais.



O Japão me ensinou principalmente a colecionar experiências, a colecionar memórias. Isso teve impacto até em minha bagagem que hoje é leve, muito leve, com pouquíssimas roupas e outros objetos, apenas o indispensável, para que ela possa voltar cheia, repleta, de momentos, de lembranças, de sentimentos, pois é só isso que me importa hoje como viajante.

Eu sou uma colcha de retalhos e tenho colada em minha alma, como tatuagem, um pedacinho da energia de cada lugar que eu passei e só percebi isso depois de viajar pelo Japão. 

Quero acumular muitos, muitos quilômetros mais e sei que cada vez que coloco o pé na estrada, eu aprendo mais e mais sobre essa maravilhosa arte de viajar, torno-me uma pessoa diferente e agrego mais um fragmento do mundo ao que sou.

P.S. - Fragmentos desse texto foram publicados no blog Caminha Gente e o texto na íntegra está na rede de viajantes Dubbi.