terça-feira, 19 de julho de 2016

CENTRO de DOCUMENTAÇÂO - Dokumentationszentrum, NUREMBERG, Alemanha:


Depois de passarmos nossa primeira tarde em Nuremberg caminhando e descobrindo a cidade e seus ingredientes, suas generalidades, resolvemos vê-la mais de perto, conhecer os detalhes de sua história, caminhar pelos ecos de seu passado visitando o Centro de Documentação. 

Quiosque que vende brezel (pretzel)
Começamos o dia no pequeno quiosque que vendia brezel em frente ao Ibis Hotel, local de nosso café da manhã quase todos os dias em que estivemos na cidade.

Eles são gostosos, tem recheios variados e custam de 2 a 3 euros. No primeiro dia pedi um com queijo emental: o apontei na vitrine e a moça que nos atendeu, muito simpática, me disse que o nome dele era ementada. No dia seguinte o escolhi de novo, chamando pelo nome próprio: ela riu e me parabenizou porque não esqueci e utilizei o nome correto.

A lenda de que os alemães são sisudos e sérios pode proceder, não duvido, mas como turista em Nuremberg eu fui recebida com sorrisos, simpatia e tagarelice. 


Posto de informação turística onde compramos os bilhetes do tram, ao fundo com estrutura de vidro;
A entrada principal da estação de trem; o ponto de tram
A placa com informações sobre o tram e o tempo de chegar ao ponto; Léo esperado o tram
O tram chegando ao ponto
Dentro do tram número 9
O painel informando os pontos de parada 
parada em frente ao Centro de Documentação: Zentrum
Deslocamo-nos para o Centro de Documentação de tram: utilizamos o de número 9 que pegamos do outro lado da entrada principal da estação de trem. A parada foi Zentrum. Foram apenas 10 minutos de travessia. Para voltar pegamos o mesmo tram, no mesmo local em que saltamos.

Os bilhetes de ida e de volta custaram 5,25 euros e compramos no Centro de Informação Turística. 


Centro de Documentação que fica dentro do Complexo do Partido Nacional Socialista

Vista aérea do Complexo do Partido Nacional Socialista
O inacabado Congresso e do lado direito o local onde está o Centro de Documentação
O Centro de Documentação é um museu com uma mostra permanente intitulada: "Fascinação e Terror" que narra a trajetória alemã por mais de duas décadas, desde o nascimento do NSDAP – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), o partido nazista, passando pela ascensão de Hitler ao poder e pela Segunda Guerra Mundial finalizando no julgamento de Nuremberg onde os líderes nazistas foram julgados por crimes de guerra e contra a humanidade.

O acervo é muito rico e contém textos, fotos, recortes de jornal, cartazes e vídeos originais, divididos em 19 sessões. A mim pelo menos este lugar pareceu extraordinário.

Foi inaugurado em 2001 e funciona dentro do maior símbolo arquitetônico do poder do partido nazi: o Complexo do Congresso do Partido Nacional Socialista – Cidade Templo do Movimento.

O Congresso, onde deveriam acontecer os encontros do partido, foi inspirado no Coliseu de Roma e seria grandioso. Só não foi concluído pela eclosão da guerra. 

Essas memórias são contadas de maneira crua, objetiva, abordando diversos fatos e personagens que envolveram os acontecimentos, o percurso dessa época trágica, triste e recente da história humana; não camuflaram ou maquiaram os episódios, para parecerem bonitos ou imprecisos.

Os elementos ali dispostos, em meio a certa penumbra, refletem as fases de um momento duro e cruel da humanidade, a face feia, sem subterfúgios. 

Centro de Documentação: textos em alemão

Centro de Documentação: áudio guia fundamental.
A visita, que possui sentido único, começa com a apresentação de um filme de 7 minutos que mescla cenas do passado e do presente do edifício, finalizando com um bombardeio do Complexo.

As informações são vastas, detalhadas e logo na primeira sala encontramos a biografia do NSDAP, do famoso Golpe da Cervejaria e posterior (e inexpressiva) prisão de Hitler, da situação econômica e política alemã após a Primeira Guerra, completamente desestruturada. Começamos ali, já na primeira sala a jornada de reconstrução dessa história.

Em Setembro de 1923, quando nem se imaginava os rumos que a Alemanha tomaria nas mãos do nazismo, a SA (Sturmapteilungen), tropa paramilitar que atacava inimigos políticos, desfilou em Nuremberg para comemorar o dia do Alemão, por vontade de Hitler.

O fato de todo o conhecimento disponível no Centro vir acompanhado de imagens, nos leva a outro nível de sentimento e de interesse e principalmente de conhecimento.

Podemos ver o futuro líder alemão ensaiando gestos teatrais para atrair as multidões. Pareceria tolo, se não soubéssemos os desdobramentos dos acontecimentos.

A partir de então, o enredo nazi vai se desenrolando para nós, à medida que vamos caminhando de uma sala a outra: a comemoração da nomeação de Hitler à chancelaria em 1933 com um desfile de tochas, o NSDAP como partido mais votado em 1932, a criação dos primeiros campos de prisioneiros onde, apesar de ainda não se pensar em extermínio, a violência já era descontrolada.

O incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, a instalação do estado de exceção, a queima de livros, a supressão de partidos, a destruição da ordem pluralista e parlamentar, a despersonalização do indivíduo, o favorecimento dos eventos de massa em detrimento à individualidade considerada parte insignificante do todo.

A perseguição aos judeus, descapacitados, homossexuais, testemunhas de Jeová, fim dos vínculos judiciais, institucionais e legais com poder ilimitado criando um mito para as massas e tonando Hitler o Führer (líder) do Terceiro Reich (Império). 

Histeria da população alemã ao ver o Führer

Hitler sobrevoa Nuremberg em 1934

Vendo os estragos causados pelos Campos de Trabalhos Forçados
O museu também destaca o papel de Nuremberg em toda a trama nazista: confesso que as imagens mostrando as pessoas em total estado de histeria diante de seu líder me surpreenderam. Até então eu tinha uma noção muito pálida da representatividade do Führer para seu povo. A propaganda (enganosa) deu total suporte à criação do ídolo.

O que mais me marcou nessa exploração às memórias alemãs, foram os vídeos com depoimentos de pessoas que viveram a guerra, dispostos ao longo de diversas salas, em seus diversos aspectos, porque deram cara, rosto e expressão. Deram sentimento aos fatos e isso tem muito peso. 

Além disso, acho que me sobressaltaram justamente por parecer, hoje, tantos anos depois do seu fim, tão recente, e ao mesmo tempo ter acontecido apenas ontem e as feridas ainda estarem abertas. Acho que o fato de os ouvirmos em seu idioma, o alemão, contribuiu para as fortes impressões que tive.

Um prisioneiro de um campo de trabalhos forçados, um escravo afirmou que trabalhavam por um prato de sopa e batatas podres sem nunca terem feito mal a ninguém. As condições eram terríveis e os prisioneiros eram exterminados pelas inaceitáveis condições de trabalho. As intimidações por parte da SS (Schutzstafell), que controlava os campos durante a guerra, eram diárias, ilimitadas onde o sadismo imperava.

Uma senhora contou que em um mesmo ano viu o seu Führer 13 vezes e era visível a sua emoção por ter tido tamanha oportunidade. Ou o senhor que disse que a maior honra de sua vida foi poder ter desfilado para Hitler e que se empenhou muito, pois marchar bem exigia dedicação.

A senhora que relatou ter sofrido perseguição de antigos colegas de escola por ser judia e outra que contou que não se preocupou quando os colegas judeus foram banidos da escola porque ora, eles tinham para onde ir. Tinham dinheiro. Ela parecia não ter ideia da realidade e não acreditava na maldade do Führer.

Os eventos nazistas eram planejados para mostrar poder e força, com milhões de participantes vindos de várias partes do país, mas nem tudo eram flores e os acampamentos onde muitos jovens passavam dias reunidos, bebedeiras, bagunças, indisciplina e brigas não eram incomuns, mas tudo isso era escondido pela propaganda nacional-socialista.

Esses eventos, que aconteciam em Nuremberg, tinham impacto significativo nos moradores, cujo sentimento variava de acordo com sua posição nesse jogo de poder: judeus, padeiros, jovens entusiastas do Führer. 

O mapa do terror

Uma das últimas salas do museu: ao fundo leis antissemitas e discurso de Hitler
A Alemanha transforma a questão antissemita em questão de estado e são promulgadas as leis de Nuremberg onde os judeus foram ainda mais degradados, passando à classificação de cidadãos de segunda classe e despossuídos de todos os seus direitos.

Apenas 2 em cada 1000 alemães se colocaram contra o estado àquela época.

A exposição finaliza mostrando o julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg. 

O Congresso

Megalomania nazista
Foi diferente ver o nacional-socialismo sob outro ângulo, contada pelos próprios alemães, observando outros aspectos dessa história que eu não vivi, mas que estudei na escola e cresci ouvindo sobre seus desdobramentos.

Embora eu seja incapaz de compreender a violência (sob qualquer âmbito) a Segunda Guerra Mundial, de muitas maneiras, sempre encontrou eco em minha alma, sempre me despertou curiosidade. No Centro de Documentação eu permiti que novas e velhas informações se cruzassem e se complementassem e inundassem meu cérebro.

Nós levamos cinco horas nesse museu, tentando absorver esse momento pretérito da humanidade. O tempo passou que nem notei. A visita termina em uma plataforma onde podemos ver o, nunca concluído, congresso e ter uma noção de seu tamanho e amplitude.

Inúmeros papeis com nomes de judeus que morreram nos campos de concentração encerram a exposição
O ingresso custou 5 euros com o áudio guia incluído (em várias línguas, mas não em português) , que foi de fundamental importância para compreender melhor todo o acervo, até porque os textos expostos estão todos em alemão e só escutamos os vídeos através do áudio-guia.

No caminho de volta ao Foyer, está a exibição “Estação, a via”, uma  homenagem aos mais de 300 anos de existência das ferrovias alemãs. Nos trilhos, papeis representam os nomes, data e local dos judeus que pereceram nos campos de concentração. Essa homenagem sela a visita ao Centro de Documentação. 


Horário de funcionamento: Segunda a Sexta: 9:00 até 18:00 e Sábados e Domingos: 10:00 às 18:00.