terça-feira, 30 de agosto de 2016

TRIBUNAL DE Nuremberg, Alemanha:


O Tribunal de Nuremberg e sua sala 600 talvez sejam os maiores símbolos da cidade alemã por conta de seu valor histórico e seu significado: o desfecho para um dos períodos mais negros e cruéis da história recente da humanidade, onde um partido político com apoio em massa de uma população cometeu atrocidades, fria e cruelmente, sem filtros ou qualquer tipo de controle de civilidade. No Tribunal de Nuremberg seus líderes foram julgados.

Bandeiras dos Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética, países envolvidos diretamente nos Julgamentos de Nuremberg.
Em frente ao Palácio de Justiça estão as bandeiras dos países aliados que estiveram envolvidos diretamente no Processo de Nuremberg: Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética.

A sala de audiências 600 nem sempre está aberta ao público, pois ainda funciona normalmente. Dois dias antes estivemos lá e ela estava fechada. Fomos informados na recepção que ela estaria aberta na sexta-feira, quando então voltamos.

Chegamos cedo, compramos nossos bilhetes de acesso, 5,00 euros com áudio guia incluído. Afirmo que fez toda diferença no acesso e entendimento dos fatos expostos: vários idiomas disponíveis, mas não em português. 

Decidimos começar pelo museu, o Memorial do Julgamento de Nuremberg, que conta a trajetória e toda a complexidade que envolveu o julgamento dos dirigentes nazistas. 

O museu com exposição permanente dos Julgamentos de Nuremberg.
Eu não esperava um museu tão rico e cheio de detalhes, compartimentado por fases e segmentos que envolveram o grande evento, com textos, áudios, paineis e vídeos distribuídos em um grande salão.

Durante horas estivemos imersos nessa história que aconteceu só ontem e que foi um marco, pois até então ninguém havia sido julgado por crimes de guerra e naquele momento os vitoriosos aliados quiseram dar um recado ao mundo: até em uma guerra valores como honra e dignidade são minimamente necessários.

A mim, me parece antagônico, mas para tudo que se faz nessa vida afinal, é preciso ter limites, seguir códigos de conduta, especialmente na era pós-revolução industrial, em que o homem passou a confeccionar armas de guerras que causam destruição em larga escala e os nazistas atravessaram amplamente essa tênue linha. 

Léo inicia o recorrido pelo museu

Churchill (UK), Roosevelt (USA) e Stálin (URSS) na Conferência de Yalta em 1945 
As informações preliminares no museu do tribunal nos levam para o mundo antes da Segunda Guerra, levantando questões sobre como a forma de guerrear foi mudando, chamando a atenção especialmente para a transformação ocorrida durante a Primeira Guerra Mundial, por conta dos novos artefatos de guerra.

O modo como os alemães julgaram seus criminosos em 1918, com leniência e penas pouco severas, foi uma das razões que levou os aliados a tomaram para si a responsabilidade pelos julgamentos de 45.

Em seguida, o museu faz um resumo do início dos anos 30, que culminariam na segunda maior guerra (há quem considere a terceira) envolvendo quase todo o mundo e dos anos onde o Império do Terror foi implantado:

1933 – Japão e Alemanha saem da ONU;

1935 – A Itália sai da ONU.

Esses países deixam claro que já não se interessam pela paz.

1942 – A cidade de Liditz, na República Tcheca é massacrada, completamente destruída e grande parte da população dizimada por ordem direta de Hitler, em retaliação pela morte do segundo em comando na super violenta SS, Reinhard Heydrich.

Os homens com mais de 15 anos foram fuzilados. As mulheres e crianças enviadas para Campos de Concentração onde morreram de tifo ou exaustão por conta dos trabalhos forçados. Após o extermínio dos habitantes, a cidade foi explodida e os alemães a riscaram dos mapas europeus.

1943 – Conferência de Moscou: Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra se reúnem no Kremlin em Moscou para definirem pontos de interesse comum como a criação de um órgão internacional de uso não egoísta pelos países e que a ocupação do território alemão seria feita pelos três aliados, entre outros itens.

1945 – Conferência de Yalta (Crimeia) – os chefes de governo Franklin D. Roosevelt (USA), Josef Stalin (URSS) e Winston Churchill (Reino Unido) reuniram-se em segredo para definir o fim da guerra e o fatiamento do Terceiro Reich entre os aliados.


Caixas que transportaram os documentos apreendidos dos nazistas
Painel com informações sobre os réus.
A partir daí o museu nos conduz pelo julgamento e suas nuances, particularidades e dificuldades, que não foram poucas, devido à magnitude do evento e por envolver quatro potências com sistemas judiciários e leis completamente distintas, assim como suas noções de justiça.

Tanto que em um primeiro momento houve um desejo de condenação sumária dos criminosos de guerra, sem a necessidade de um julgamento. No entanto, depois de longas negociações os 4 países chegaram a um consenso, o que pode ser considerado um feito extraordinário devido às circunstâncias.

Os Estados Unidos foram os principais condutores de todo o processo, incluindo, portanto, seu próprio sistema judiciário, como o fato de não haver júri popular e sim juízes, modelo desconhecido pelos europeus.

Vários países assinaram um documento validando e reconhecendo este processo, ponto considerado muito importante, para que a resposta ao mundo e aos futuros imperadores do terror fosse bem clara: não haverá complacência para os crimes dessa natureza.

A Alemanha foi vasculhada de ponta a ponta em busca de provas que incriminassem os nazistas, pois os promotores americanos queriam confrontá-los com seus próprios documentos: provas irrefutáveis de seus atos.

Assim, detalhes do espetáculo negro orquestrado pelos nazistas vieram à tona causando repugnância ao mundo, que não tinha até então, noção exata das atrocidades cometidas pelos nacional-socialistas, como por exemplo, fotos, gravações e documentos sobre a tragédia de Liditz. 

A exibição do filme pelos promotores mostrando os campos de concentração no momento em que as forças aliadas chegavam para libertar os prisoneiros, talvez tenha sido um dos momentos mais dramáticos de todo o julgamento e paralisou o tribunal. O filme exibia os esqueléticos e mal tratados judeus, sombras humanas, faces da agonia, esqueletos incinerados nos fornos, corpos empilhados. 

Hermann Göring fala ao tribunal

Os réus e suas sentenças

Hitler, Goebbels e Himmler não foram a julgamento pois cometeram suicídio
Os alemães tiveram direito à ampla defesa, sendo constituídos advogados e permitidas testemunhas. Esse foi inclusive um momento delicado, pois, o advogado de Rudolf Hess questionou a legitimidade daquele tribunal, uma vez que a União Soviética também esteve envolvida em genocídios, como em Katyn, cidade polonesa onde grande parte da população foi assassinada em 1940. Não mudou os rumos do julgamento, mas a integridade da União Soviética ficou abalada naquele momento.

Além disso, antes do início da guerra Alemanha e União Soviética assinaram um pacto de não agressão mútua, fatiando a Polônia entre eles.

As acusações imputadas aos líderes nazistas foram: conspiração, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Crimes cometidos pelos alemães contra outros alemães ficaram de fora do julgamento.

Em sua defesa, a maioria dos líderes nazistas, covardes, alegou que o Führer era o único responsável por tudo o que ocorreu nos anos de brutalidade e desumanidade, que eles eram apenas militares e executavam ordens, pois não tinham alternativas. O tribunal refutou com veemência tal argumento com provas e documentos colocando em xeque essa argumentação frágil.

As sentenças foram variadas: houve os condenados à morte (Hanz Frank, Göring, Ribbentrop, Rosemberg), prisão perpétua (Rudolf Hess) e até absolvição como Franz von Papen. Foram necessários dois dias de deliberação para a decisão final.

Os únicos que não foram levados à julgamento foram Adolf Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler que se suicidaram quando se deram conta que haviam perdido a guerra e Robert Ley que se suicidou na prisão. 

A sala de audiências 600: juízes e promotores
O Julgamento de Nuremberg foi um grande circo que envolveu muitos profissionais, como juízes, promotores, advogados, assistentes, fiscais, psiquiatras, soldados, testemunhas, jornalistas e intérpretes.

Foi um evento pioneiro sob muitos aspectos dentre eles, a veiculação em tempo real dos acontecimentos e a tradução simultânea uma vez que envolvia diversos países e seus idiomas. Todo o julgamento foi gravado para a proteção de todos. 

A prisão que abrigou os réus em 1945

A prisão, anexa ao Palácio de Justiça, nos dias atuais

A prisão, anexa ao Palácio de Justiça, nos dias atuais

Doutor Kelley, o psiquiatra que cuidou dos líderes nazis
Nuremberg não foi escolhida para sediar este acontecimento por conta de sua representatividade junto aos nacional-socialistas tendo sido palco de tantos e tantos comícios megalomaníacos do partido, e sim porque o Palácio da Justiça foi um dos poucos edifícios grandes que sofreram poucos danos com os bombardeios, precisando de poucas reformas.

Os prisioneiros de guerra ficaram presos no complexo penitenciário anexo ao tribunal, de três andares, construído no século XIX, sob responsabilidade do exército americano e do Coronel Andrus e sob os cuidados do psiquiatra, também americano, Dr. Douglas M. Kelley, pois os aliados não queriam saber de suicídios ou alegações de insanidade.

O Dr. Kelley, que aproveitou a oportunidade para estudar a mente nazista, encantou-se com Hermann Göring e sua personalidade marcante. Um dos possíveis sucessores de Hitler no comando nazista foi encontrado morto em sua cela, tendo cometido suicídio cerca de 2 horas antes de sua execução. Nunca se descobriu quem o ajudou nessa empreitada.

O mapa d prisão

As celas

A ração

O passeio
As celas que abrigavam os presos mediam mais ou menos 9x5 m² e eram austeras para que não fossem abrigadas armas que os prisioneiros pudessem usar para tirar a própria vida. Os guardas vigiavam as celas dia e noite, através de postigos quadrados de 0,30 cm, situados na porta de entrada.  

Os criminosos não tinham total privacidade nem quando utilizavam o banheiro, cujo vaso não possuía tampa, onde os pés sempre ficavam visíveis.

Eles tinham o direito de caminhar pelo pátio por 20 minutos diários, sendo obrigatório manter distância uns dos outros de no mínimo 10 metros.

A ração que recebiam, apesar de simples, tinha valor nutricional superior ao da maioria da população alemã naqueles tempos e em todos os outros aspectos muito superior ao alimento que os judeus e prisioneiros de guerra receberam nos últimos anos. Os americanos queriam que eles estivessem bem e saudáveis para enfrentar os julgamentos, que duraram 218 dias e demandaram muitas e muitas horas de trabalho.

Acima: réus e advogados de defesa na sala 600 do tribunal e abaixo, os advogados de defesa em frente ao tribunal
Os réus japoneses

As terríveis experiências médicas realizadas em judeus
A imprensa teve papel fundamental ao divulgar amplamente os acontecimentos, pois era importante não haver dúvidas sobre a justiça de todo o processo. O Castillo Stein (ex Fabber Castell, dos famosos lápis) serviu de alojamento para os jornalistas que reclamavam a todo instante das más condições do local.

Além disso, era necessário convencer a população alemã, enfeitiçada por Hitler e sua propaganda enganosa, dos crimes cometidos.

Após o julgamento dos líderes do NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) o julgamento de outros envolvidos como médicos, que fizeram experiências brutais com judeus, membros do judiciário nazi, banqueiros, ministros e funcionários administrativos, além de membros da SS (Schutzstafelle SA (Sturmapteilungen) foram acontecendo nos anos seguintes.

Houve julgamentos também em Tóquio, com 11 países envolvidos, a saber: Estados Unidos, União Soviética, Filipinas, Índia Britânica, Austrália, China, entre outros. Foi finalizado em 1948 e houve sentenças de morte e prisão perpetua.

A exposição finaliza com uma mostra dos crimes contra a humanidade, que infelizmente continuam acontecendo com grande frequencia. 

Rudolf Hess fala ao tribunal

Ohlendorfs fala ao tribunal

O vídeo que mostra o julgamento e os bancos dos réus

Göring e Hess durante o julgamento
Passei horas mergulhada de corpo e alma no processo de Nuremberg e nos anos de guerra que ele trouxe à tona. O mundo ao meu redor sumiu. O único ruído que eu escutava era o de meu áudio guia.

Os momentos preferidos: os vídeos, pois é sempre cruel ver as imagens. O sorriso quase constante de Göring mostrando desprezo por tudo aquilo e com a certeza de que naquele palco reverteria as opiniões do mundo, desejando demonstrar todo o brilho da Alemanha nazista, entrando ele mesmo para a história, revela sua megalomania.

Os áudios, com as vozes dos criminosos, em alemão, idioma que fizeram questão de usar, mesmo aqueles que falavam inglês, também foram marcantes, memoráveis, inesquecíveis.

Ohlendorf, oficial da SS de alta patente, que cometeu vários assassinatos e atrocidades, friamente narra o aniquilamento e extinção de judeus e comunistas.

Rudolf Hess fala sobre a solução final, o extermínio dos judeus, ideia que surgiria na metade da segunda guerra. O vice-líder do partido nazi, em um ato tresloucado, voou sozinho até a Escócia, em 1941, com o intuito de negociar a paz com o Reino Unido, onde segundo ele, o Império Britânico seria protegido e em contrapartida, não deveria se opor ao interesses alemães. 

Ele salta de para-quedas, é detido e anos mais tarde é enviado a Nuremberg para ser julgado. Durante o julgamento, Hess segue ovacionando Hitler, alegando que cumpriu seu dever como nacional-socialista, colocando-se a serviço do povo alemão, afirmando que não se arrependia de nada.

Fritz Sauckel – diretor do programa de trabalho escravo declarou que conheceu um Führer preocupado com seu povo e muito generoso.

“Meu maior erro talvez tenha sido meu sentimento e excesso de confiança nele, assim como minha grande veneração por Hitler. Eu só o conhecia como o campeão pelos direitos da existência do povo alemão e via o homem que era amável com trabalhadores, mulheres e crianças e que promovia os interesses vitais da Alemanha. Não pude reconhecer o Hitler apresentado nesse tribunal.”

Não há como não sair com a alma ao mesmo tempo pesada por percebermos que o mundo ainda está muito longe da civilidade, porque essa história é nossa, recente, e massacres continuam acontecendo e vejo aqui e acolá fumaças ainda não totalmente apagadas dessa era de terror ministrada pelos nazistas, como também de alma lavada, porque o tribunal reconheceu diante da humanidade que não podemos tolerar nada parecido com o Holocausto.

Fomos em direção à sala 600, para completar nossa visita, mas ela havia sido fechada novamente. Conto esse episódio em outro texto quando todos nós nos refizermos da visita ao Memorial do Processo de Nuremberg.


À caminho do Palácio de Justiça
Para chegar até o Palácio de Justiça é só pegar a linha do metro U1 (linha verde) e descer na estação de Bärenschanze.

Funciona de Quarta a Segunda das 10 AM às 6 PM. Lembrando que a sala 600 está aberta nesses mesmos horários desde que não esteja acontecendo nenhuma sessão ou evento, quando então é fechada ao público sem aviso prévio.

Como nós somos andarilhos urbanos e gostamos de olhar a cidade enquanto caminhamos, fomos até lá utilizando nossos pés como meio de transporte. Foram mais ou menos 45 minutos para ir e mais 45 minutos para voltar desde a königstraße. A cidade neste dia estava um forno.