domingo, 25 de dezembro de 2016

Algumas CIDADES portuguesas:

Cidades Portuguesas
Cidades Portuguesas
Portugal é um país pequeno e por conta disso, cometi o equívoco de pensar que as cidades portuguesas eram todas parecidas e que não possuíam personalidade ou identidade própria. O país tem as fronteiras mais antigas da Europa e talvez daí tenha derivado minha perspectiva. Contudo, descobri que não poderia estar mais enganada.
Cada uma das cidades que visitamos carrega individualidade e características marcantes. Em comum, todas elas eram bem diferentes de outras cidades europeias que já visitei, fazendo com que constantemente eu esquecesse que estava no velho continente.
Porto, Sintra, Évora, Lisboa e Óbidos possuem natureza e propriedades únicas.

Porto Portugal O que visitar
Porto
No Porto encontrei a mais bela arquitetura. A cidade tem um semblante que mistura simplicidade com certo ar blasé, indiferente, de quem sabe o que significa e não dá muita importância. Acho que essa atmosfera despretensiosa me conquistou no primeiro instante.
Talvez a mistura de influência celta e moura, povos que passaram por essas terras tantos e tantos séculos atrás, antes de Portugal nascer, sob as mãos de D. Afonso I, tenha dado o tom do Porto acentuado por tantas e diferentes batalhas e disputas nos anos seguintes, ou pela intensa atividade mercantil. 
Ou talvez sua tez venha da ideia de ter sido o presente de um pai - Rei Afonso VI - para sua filha D. Isabel, por ocasião de seu casamento com D. Henrique de Borgonha. 
As pessoas no primeiro momento parecem sérias e muito formais, exercendo seus papeis sociais e profissionais, mas logo percebi que apenas um sorriso e uma pergunta abriam a torneira para uma enxurrada de simpatia, muitas palavras vertidas e interessantes histórias. Eu me deliciava!
Porto é famosa principalmente por seu vinho, único, de sabor forte e adocicado, mas posso afirmar que a cidade tem muito mais a oferecer. Ela mostra, sem pudor algum, suas rugas, marcas essas de quem já viu e viveu muita coisa. É uma cidade que apresenta muitas caras, dependendo de onde a observemos, é múltipla.

A partir do século XVII, se estendendo até o tumultuado século XIX quando aconteceram as invasões francesas, a cidade viu intensa atividade arquitetônica que deram a aparência que conhecemos hoje, sendo que no século XX  foi classificada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Sintra Portugal O que visitar Algumas cidades Portuguesas
Sintra
O Centro Histórico de Sintra está muito bem preservado e é em busca dele que nós visitantes seguimos, ávidos por conhecer seus palácios e castelos, que parecem recém construídos, de tão bem conservados que estão, mas em verdade, possuem séculos de idade.

As pessoas em Sintra desempenham muito bem seus personagens com presteza, simpatia, eficiência e muitas vezes com curiosidade. Eles costumam classificar a nós turistas: os japoneses são assim, os brasileiros assado, os franceses gostam disso, os americanos daquilo, enquanto os alemães se comportam dessa maneira.

Eu achei simpático, pois assim, eles buscam oferecer os melhores serviços, embora muitas vezes cometam equívocos ao classificar os povos.

Sintra possui uma paisagem interessante que mistura natureza exuberante com bela e encantadora arquitetura, que nos leva a um mundo meio mágico, onde seres de outros mundos observam o nosso ir e vir.

A Vila de Sintra é referenciada em documentos mouros, quando a região fazia parte do Gharb al-Andalus, padeceu com a peste negra que assolou a Europa, teve alguns de seus filhos participando das grandes explorações marítimas, sofreu estragos e mortes com o terrível terremoto de 1755.

Foi lugar de inspiração, onde residiram e/ou trabalharam importantes artistas portugueses, como Eça de Queirós. O século XX é marcado pela urbanização da cidade.

Évora, Portugal Cidades o que visitar
Évora
Évora foi uma surpresa das mais agradáveis! A cidade parece monótona à primeira vista, com seus tons de amarelo e branco, constantes em sua arquitetura, mas ela, em verdade, é maravilhosa.

As cores de seus edifícios têm significado: o branco para refletir os raios solares tão quentes nessa região e o amarelo da base, para confundir os insetos para que eles não entrem nas casas.

Suas ruas, que parecem não ter lógica alguma, serpenteiam entre os edifícios, onde parte da diversão é entrar pelas vielas e descobrir o que encontramos em seguida.

Évora mantém pequenas joias de seu passado, numa mescla de idades, funções e estilos, quebrando a aborrecida uniformidade de sua aparência. A gastronomia local fez com que me sentisse em casa.

Aqui nós tivemos as melhores experiências gastronômicas, fomos vítimas de gentilezas sem conta, de conversas deliciosas, inesquecíveis, mas encontrei um povo discreto, que é preciso tato e cuidado para quebrar as primeiras e segundas camadas. Uma vez feito isso, somos agraciados com lembranças memoráveis.

Foi muito confortável para nós estar em Évora, Patrimônio Cultural da UNESCO: caminhamos tranquilamente pelas ruas, subindo e descendo, muitas vezes acompanhados apenas do silêncio.

Muitos povos deixaram suas marcas nessa charmosa cidade: os Celtas passaram por essas terras há mais de 20 séculos e talvez daí vinha o nome Évora. Os Romanos dominaram a região logo em seguida e nos deixaram de presente o Templo Romano. Visigodos e Mouros habitaram Évora nos séculos seguintes e fortificaram a cidade. 

Lisboa, Portugal Cidades o que visitar
Lisboa
Lisboa é complexa. Não foi fácil entender, aceitar e gostar da capital portuguesa, em parte por conta da confusão causada pela ansiedade e frenesi dos inúmeros turistas, em parte estimulada pela irritação dos lisboetas com a recente invasão de sua antes pacata cidade. Eles conseguem ser, muitas vezes, secos e até rudes.

Entretanto, Lisboa é linda. Sua beleza conseguiu atravessar os tempos e sob o verniz das eras modernas, ela mantém seu ar artesanal, arcaico e acho que aí está todo o seu charme.

Sua fisionomia varia entre o elegante e o simplório. Lisboa tem personalidade forte, um passado de glórias e um presente de autodescoberta. Gregos, Fenícios e Romanos estiveram em Lisboa muito antes de nós, assim como Visigodos e Mouros. Dessa mistura interessante nasceu essa cidade embaraçada e labiríntica.

No século XIV, como em muitas outras cidades medievais, surgem em Lisboa as ruas com os nomes de várias profissões: Rua do Ouro (ourives), Rua dos Sapateiros, Rua da Prata (por causa dos joalheiros que trabalhavam a prata) ou Rua dos Retroseiros (que vende bordado e artigos para costura - armarinho), que nos dão uma ideia de como era a organização social da época.

Daqui partiram corajosos homens que se lançaram ao mar em busca de rotas de comércio alternativas e novos mundo, transformando Portugal no Império mais poderoso do mundo durante muitos e muitos anos.

Talvez o momento mais dramático da cidade, e que me parece reverbera até hoje, tenha sido o grande terremoto que destruiu Lisboa, acompanhado de um maremoto e um incêndio.

"Enterrem os mortos e alimentem os vivos", teria dito o Marques de Pombal que se lançou ao trabalho de reconstruir Lisboa. Até hoje encontramos traços, fortes, da reconstrução pombalina que marcou o renascimento da capital.  

O século XIX foi prodigioso para as artes: nasce o fado, o teatro de revista, as obras de escritores como Camilo Castelo Branco e marca a industrialização do país, tendo Lisboa como principal abrigo das indústrias.

A capital de Portugal é exemplar único. 

Vila de Óbidos, Portugal Cidades o que visitar
Vila de Óbidos
Óbidos é puro charme. Podemos dizer que a vila é apenas uma rua, mas a sua graça está nos pormenores, no tempo que gira em outro ritmo, na delícia de estar, apenas estar. Seu traço mais marcante é a muralha que a circunda, mas não é só isso.

Sua história é puro romantismo: ela foi dada de presente para Isabel de Aragão pelo rei Dinis, em ocasião do casamento. O cenário não mudou desde então; as intervenções modernas não alcançaram, pelo menos não de forma significativa, a velha Óbidos.

Cidades portuguesas: Porto, Sintra, Évora, Lisboa, Óbidos
Cidades portuguesas: Porto, Sintra, Évora, Lisboa, Óbidos
A gastronomia é completamente distinta entre as cidades, mesmo quando o prato oferecido, como o onipresente bacalhau, é o mesmo: a diferença de tempero pode ser sutil ou não, mas está ali, presente. Em comum, a culinária  portuguesa costuma ser deliciosa em todo canto.

O tratamento dispensado nos diversos lugares também variou bastante entre as cidades desde a quase intimidade até um discreto desprezo.

A arquitetura e atmosfera não poderiam ter diferenças mais profundas. Nenhuma cidade que visitei é verdadeiramente cosmopolita, mas o ritmo de cada uma, refletido na maneira como as pessoas caminham, como se comunicam, como exercem o dia a dia e interagem com os visitantes é muito distinta em cada uma delas.

As cores também mudam de cidade para cidade: Óbidos sempre vai me remeter ao azul, enquanto obviamente que ao pensar em Évora o amarelo irá predominar. Sintra, para mim, tem traços de verde, de amarelo, vermelho e cinza.

Porto me lembra o vermelho terral com toques aqui e acolá de tons pastel. Já Lisboa me pareceu mais colorida, embora não em tons intensos e sim mais gastos, mais pálidos.

Porto tem frescor, vivacidade, energia e vigor, enquanto Lisboa ecoa impaciência e sofreguidão. Óbidos é tranquilidade e silêncio. Évora é serena e pacata, apesar de jovial em certa medida.  Sintra tem ares de realeza e altivez.

As cidades portuguesas guardam profundas diferenças entre elas, mas possuem similaridades também como por exemplo o relacionamento deles com o horário.

Por todos os lugares que passamos esse quesito me pareceu apenas um parâmetro, que não deveria ser necessariamente cumprido. A pontualidade não é exigida. 

No posto de informações turísticas fomos informados que a visitação de um determinado ponto de nosso interesse encerrava-se às 19 horas. Sendo assim, deixamos nossa ida ao referido lugar para o fim do dia. 

Qual não foi nossa surpresa ao chegarmos lá e nos depararmos com um cartaz que indicava os horários e ali estava dito que o encerramento dava-se às 18 horas, ou seja, já estava fechando. Frustradíssima, demos a volta e uma senhora na portaria nos disse que não, que o lugar podia ser visitado até às 20 horas, para o meu alívio. 

Em outra cidade, um museu indicava que iniciava seu funcionamento às 10 horas da manhã. Com o tempo muito apertado mas com vontade de conhecer o pequeno acervo, me posicionei na entrada do museu às 09:50.

Entretanto, a jovem funcionária só chegou às 10:15, sorriu amavelmente, me disse para esperar um pouquinho que já, já ela abria e fechou a porta. Resultado? Não consegui visitar.

Em comum, em todos os cantos, notamos também certa lógica curiosa no item comunicação: ao perguntarmos em uma loja, quanto custava um cartão postal, a resposta foi, não custa. Silêncio. Enquanto Léo não perguntou se poderia pegar um, nada foi dito. À sua pergunta, a moça sorriu e disse: claro, claro.

Fomos até a bilheteria de uma estação comprar bilhetes de trem e perguntamos: como fazemos para comprar passagens de trem? Vem aqui e compra, foi a resposta que o senhor nos deu.
Em muitos lugares vimos referência ao Multibanco e, curiosos, nós perguntamos a uma senhora em uma cafeteria: o que é o Multibanco? Ora, o Multibanco, é o Multibanco, respondeu-nos ela. 
Costumeiro também, a mania de usar diminutivos, de considerarem Portugal aquém de outros países no continente, mas sem permitir que qualquer outra pessoa intervenha nas querelas deles e doces excepcionalmente gostosos!
Enfim, a verdade é que Portugal é deliciosamente mais diverso e interessante do que eu poderia esperar.