domingo, 4 de dezembro de 2016

As PEQUENAS cidades do MUNDO:

Girona Cataluña Espanha
Pelas escadaria de Girona
Eu tenho uma regra básica de viagem, uma premissa: a cada jornada, apenas um país é escolhido. Sou adepta do slow travel. Quando eu digo slow, é devagar de verdade. Aquelas viagens de cinco, seis, até dez países em duas semanas, nem pensar! Não funciona para mim. Em novembro de 2015 passei quinze dias em Florença. Um amigo me disse: para mim você “morou” 15 dias em Florença.

A razão principal desta opção é que eu acredito que um país tem muito a nos oferecer e às vezes as atrações mais marcantes estão longe das capitais ou dos grandes centros, onde temos mais chances de vivenciarmos experiências mais significativas, deixando assim sua marca, como tatuagem, em nossa alma. 



Dito isso, afirmo com muita convicção que eu tenho um caso de amor infinito com as pequenas cidades do mundo: Omsk e Tomsk (Sibéria – Rússia), Edam e Haarlem (Holanda), Verona e Siena (Itália), Takayama (Japão), Girona e Córdoba (Espanha), Bath e Glastonbury (Inglaterra), Nuremberg e Münster (Alemanha) apenas para citar algumas.

As cidades pequenas são cheias de charme, de aconchego, de história e de muitas maneiras nos permitem participar mais de seu cotidiano, nos aceitam mais em seu contexto. Há uma troca maior entre nós turistas e as cidades menores, de ritmo mais lento.
Posso gastar apenas um dia em algumas dessas cidades ou me deixar ficar por dois, três dias, percorrendo suas ruas e vielas, muitas vezes quase vazias, tentando desvendar os seus mistérios, os seus segredos, seu funcionamento. 
Em inúmeras ocasiões saí delas como entrei: sem entender, sem conhecer seus caminhos mais profundos, mas com certeza tendo vivido momentos que me modificaram, contribuíram para mudanças, pequenas ou não, em minha atuação como ser humano, pois as experiências costumam ser mais marcantes uma vez que o ritmo está longe de ser frenético.
Além disso, nas cidades pequenas posso utilizar meus pés e pernas para me locomover, pois as distâncias são mais curtas e assim vou sorvendo os lugares e suas nuances, suas cores e seus aromas. Vou observando sua gente.
Córdoba Andaluzia Espanha
Tortillas e Javier Bardem em Córdoba

Glastonbury Inglaterra
Glastonbury Inglaterra

Verona Veneto Itália
Em meu próprio balcão em Verona
Tenho tido deliciosas surpresas ao sair de grandes centros, como em Girona, Espanha, onde um senhor nos parou no meio da rua para conversar sobre sua Girona Aimada, tão gentil e apaixonado e em uma livraria, na mesma cidade, lugar que gastamos muito tempo conversando com o dono sobre livros e idiomas, traduções e cultura.

Isso sem falar no senhorzinho que correu uns 200 metros comigo, durante a meia maratona de Padova, Itália, gritando "bella", quando viu que eu estava começando a quebrar. Ele salvou a minha corrida. Graças a ele cruzei a linha de chegada. 

O que dizer então, do atendente da pizzaria, também em Padova, que ficou jogando conversa fora com a gente, falando da vida na cidade, enquanto assava pizzas? 

Em Córdoba, Espanha, experimentamos os banhos árabes e quando saímos para a quente noite andaluza, sentamo-nos ao ar livre, molhados ainda, para vinhos, tapas e gazpachos. A noite estava silenciosa e a Mesquita resplandecia sob as luzes artificiais.
No bar em que paramos para comer tortillas, gastamos quase uma tarde conversando trivialidades com o atendente que parecia com o ator Javier Bardem. Ali mesmo, conhecemos uma indiana, linda, que estava passeando pela andaluzia. Mais trocas culturais. 

Bath Inglaterra
Banhos romanos em Bath

Tomsk Sibéria Rússia
Tomsk
Em Omsk e Tomsk, na Sibéria, encontramos ótimos papos: uma senhora na pequena igreja nos explicou sobre os símbolos ortodoxos russos. Um jovem no Centro de Repressão levou horas conversando com a gente sobre os terríveis anos do comunismo e sobre a história de sua família. Sua amiga quis saber de onde nós éramos e como tínhamos ido parar tão longe.

Em Takayama vimos a neve cair enquanto tomávamos chá e comíamos bolo. Em uma casa museu uma senhora pequenina e sorridente, se aqueceu junto comigo em um fogo no meio da sala: conversamos, eu falando em um português gesticulado e ela em um japonês comedido. Como? Pura magia, dessas que encontramos nas cidades que nos acolhem. Se fechar os olhos, sinto tudo novamente.

Em Nuremberg, os recepcionistas do Centro de Documentação conversaram longamente conosco sobre justiça e sobre cultura. Em um dos restaurantes, o garçom conversou sobre futebol quando soube que éramos brasileiros. Sem zoação. 

Münster Alemanha cidades
Münster
Évora Portugal cidades portuguesas
Évora
Em Münster a garçonete de um dos restaurantes que jantamos, ficou curiosa e perguntou qual a nossa nacionalidade e sem pressa alguma ficou trocando uma ideia conosco. Isso sem falar na possibilidade de pararmos o relógio e de simplesmente nos permitirmos estar, sem nenhuma outra preocupação que essa: viver o instante.

Em Edam a senhora abriu um museu só para nós. Depois a encontramos comprando pão e voltando para casa em um fim de tarde escuro e frio na Holanda.  

Em Évora, Portugal, o dono de um dos restaurantes em que nós estivemos fechou a porta do estabelecimento ao fim do horário do almoço, nos ofereceu um digestivo e a conversa foi longe. Em Óbidos, o jantar foi demorado: além da deliciosa comida, a conversa não parava: com o garçom, a hostess e o proprietário.  

Em Bath, diante de minha frustração nos Banhos Romanos, pois queria ficar mais tempo, o guarda carimbou o meu bilhete e me disse: volte amanhã! As fitinhas do Sr. do Bonfim fizeram sucesso no restaurante do hotel em que nos hospedamos na cidade: todas as garçonetes vieram nos pedir uma e o gerente deu risada com a movimentação. Sem stress. Sem pressa. Sem agonia.  

Nas cidades menores temos tempo de absorver os climas, as experiências, os novos conhecimentos. Temos tempo de mudar a roupa da alma. O ritmo menos agitado, nos permite o contato. 

As cidades pequenas me permitem construir memórias afetivas mais profundas, com paciência e delicadeza, que eu carrego comigo, contribuindo para a construção do que sou: uma colcha de retalhos.

Moscou Rússia
Moscou
Eu adoro Londres, Amsterdam e Moscou. Petersburgo é maravilhosa. Tóquio e Mexico DF são intensamente deliciosas, mas para sentir um país, me embebedar de sua cultura, impregnar-me com sua beleza (nem sempre óbvia) eu prefiro o charme das cidades menores, mesmo tendo a certeza da multiplicidade de um país que em qualquer lugar oferece bons momentos para quem se abre para ele.