terça-feira, 30 de agosto de 2016

TRIBUNAL DE Nuremberg, Alemanha:


O Tribunal de Nuremberg e sua sala 600 talvez sejam os maiores símbolos da cidade alemã por conta de seu valor histórico e seu significado: o desfecho para um dos períodos mais negros e cruéis da história recente da humanidade, onde um partido político com apoio em massa de uma população cometeu atrocidades, fria e cruelmente, sem filtros ou qualquer tipo de controle de civilidade. No Tribunal de Nuremberg seus líderes foram julgados.

Bandeiras dos Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética, países envolvidos diretamente nos Julgamentos de Nuremberg.
Em frente ao Palácio de Justiça estão as bandeiras dos países aliados que estiveram envolvidos diretamente no Processo de Nuremberg: Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética.

A sala de audiências 600 nem sempre está aberta ao público, pois ainda funciona normalmente. Dois dias antes estivemos lá e ela estava fechada. Fomos informados na recepção que ela estaria aberta na sexta-feira, quando então voltamos.

Chegamos cedo, compramos nossos bilhetes de acesso, 5,00 euros com áudio guia incluído. Afirmo que fez toda diferença no acesso e entendimento dos fatos expostos: vários idiomas disponíveis, mas não em português. 

Decidimos começar pelo museu, o Memorial do Julgamento de Nuremberg, que conta a trajetória e toda a complexidade que envolveu o julgamento dos dirigentes nazistas. 

O museu com exposição permanente dos Julgamentos de Nuremberg.
Eu não esperava um museu tão rico e cheio de detalhes, compartimentado por fases e segmentos que envolveram o grande evento, com textos, áudios, paineis e vídeos distribuídos em um grande salão.

Durante horas estivemos imersos nessa história que aconteceu só ontem e que foi um marco, pois até então ninguém havia sido julgado por crimes de guerra e naquele momento os vitoriosos aliados quiseram dar um recado ao mundo: até em uma guerra valores como honra e dignidade são minimamente necessários.

A mim, me parece antagônico, mas para tudo que se faz nessa vida afinal, é preciso ter limites, seguir códigos de conduta, especialmente na era pós-revolução industrial, em que o homem passou a confeccionar armas de guerras que causam destruição em larga escala e os nazistas atravessaram amplamente essa tênue linha. 

Léo inicia o recorrido pelo museu

Churchill (UK), Roosevelt (USA) e Stálin (URSS) na Conferência de Yalta em 1945 
As informações preliminares no museu do tribunal nos levam para o mundo antes da Segunda Guerra, levantando questões sobre como a forma de guerrear foi mudando, chamando a atenção especialmente para a transformação ocorrida durante a Primeira Guerra Mundial, por conta dos novos artefatos de guerra.

O modo como os alemães julgaram seus criminosos em 1918, com leniência e penas pouco severas, foi uma das razões que levou os aliados a tomaram para si a responsabilidade pelos julgamentos de 45.

Em seguida, o museu faz um resumo do início dos anos 30, que culminariam na segunda maior guerra (há quem considere a terceira) envolvendo quase todo o mundo e dos anos onde o Império do Terror foi implantado:

1933 – Japão e Alemanha saem da ONU;

1935 – A Itália sai da ONU.

Esses países deixam claro que já não se interessam pela paz.

1942 – A cidade de Liditz, na República Tcheca é massacrada, completamente destruída e grande parte da população dizimada por ordem direta de Hitler, em retaliação pela morte do segundo em comando na super violenta SS, Reinhard Heydrich.

Os homens com mais de 15 anos foram fuzilados. As mulheres e crianças enviadas para Campos de Concentração onde morreram de tifo ou exaustão por conta dos trabalhos forçados. Após o extermínio dos habitantes, a cidade foi explodida e os alemães a riscaram dos mapas europeus.

1943 – Conferência de Moscou: Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra se reúnem no Kremlin em Moscou para definirem pontos de interesse comum como a criação de um órgão internacional de uso não egoísta pelos países e que a ocupação do território alemão seria feita pelos três aliados, entre outros itens.

1945 – Conferência de Yalta (Crimeia) – os chefes de governo Franklin D. Roosevelt (USA), Josef Stalin (URSS) e Winston Churchill (Reino Unido) reuniram-se em segredo para definir o fim da guerra e o fatiamento do Terceiro Reich entre os aliados.


Caixas que transportaram os documentos apreendidos dos nazistas
Painel com informações sobre os réus.
A partir daí o museu nos conduz pelo julgamento e suas nuances, particularidades e dificuldades, que não foram poucas, devido à magnitude do evento e por envolver quatro potências com sistemas judiciários e leis completamente distintas, assim como suas noções de justiça.

Tanto que em um primeiro momento houve um desejo de condenação sumária dos criminosos de guerra, sem a necessidade de um julgamento. No entanto, depois de longas negociações os 4 países chegaram a um consenso, o que pode ser considerado um feito extraordinário devido às circunstâncias.

Os Estados Unidos foram os principais condutores de todo o processo, incluindo, portanto, seu próprio sistema judiciário, como o fato de não haver júri popular e sim juízes, modelo desconhecido pelos europeus.

Vários países assinaram um documento validando e reconhecendo este processo, ponto considerado muito importante, para que a resposta ao mundo e aos futuros imperadores do terror fosse bem clara: não haverá complacência para os crimes dessa natureza.

A Alemanha foi vasculhada de ponta a ponta em busca de provas que incriminassem os nazistas, pois os promotores americanos queriam confrontá-los com seus próprios documentos: provas irrefutáveis de seus atos.

Assim, detalhes do espetáculo negro orquestrado pelos nazistas vieram à tona causando repugnância ao mundo, que não tinha até então, noção exata das atrocidades cometidas pelos nacional-socialistas, como por exemplo, fotos, gravações e documentos sobre a tragédia de Liditz. 

A exibição do filme pelos promotores mostrando os campos de concentração no momento em que as forças aliadas chegavam para libertar os prisoneiros, talvez tenha sido um dos momentos mais dramáticos de todo o julgamento e paralisou o tribunal. O filme exibia os esqueléticos e mal tratados judeus, sombras humanas, faces da agonia, esqueletos incinerados nos fornos, corpos empilhados. 

Hermann Göring fala ao tribunal

Os réus e suas sentenças

Hitler, Goebbels e Himmler não foram a julgamento pois cometeram suicídio
Os alemães tiveram direito à ampla defesa, sendo constituídos advogados e permitidas testemunhas. Esse foi inclusive um momento delicado, pois, o advogado de Rudolf Hess questionou a legitimidade daquele tribunal, uma vez que a União Soviética também esteve envolvida em genocídios, como em Katyn, cidade polonesa onde grande parte da população foi assassinada em 1940. Não mudou os rumos do julgamento, mas a integridade da União Soviética ficou abalada naquele momento.

Além disso, antes do início da guerra Alemanha e União Soviética assinaram um pacto de não agressão mútua, fatiando a Polônia entre eles.

As acusações imputadas aos líderes nazistas foram: conspiração, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Crimes cometidos pelos alemães contra outros alemães ficaram de fora do julgamento.

Em sua defesa, a maioria dos líderes nazistas, covardes, alegou que o Führer era o único responsável por tudo o que ocorreu nos anos de brutalidade e desumanidade, que eles eram apenas militares e executavam ordens, pois não tinham alternativas. O tribunal refutou com veemência tal argumento com provas e documentos colocando em xeque essa argumentação frágil.

As sentenças foram variadas: houve os condenados à morte (Hanz Frank, Göring, Ribbentrop, Rosemberg), prisão perpétua (Rudolf Hess) e até absolvição como Franz von Papen. Foram necessários dois dias de deliberação para a decisão final.

Os únicos que não foram levados à julgamento foram Adolf Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler que se suicidaram quando se deram conta que haviam perdido a guerra e Robert Ley que se suicidou na prisão. 

A sala de audiências 600: juízes e promotores
O Julgamento de Nuremberg foi um grande circo que envolveu muitos profissionais, como juízes, promotores, advogados, assistentes, fiscais, psiquiatras, soldados, testemunhas, jornalistas e intérpretes.

Foi um evento pioneiro sob muitos aspectos dentre eles, a veiculação em tempo real dos acontecimentos e a tradução simultânea uma vez que envolvia diversos países e seus idiomas. Todo o julgamento foi gravado para a proteção de todos. 

A prisão que abrigou os réus em 1945

A prisão, anexa ao Palácio de Justiça, nos dias atuais

A prisão, anexa ao Palácio de Justiça, nos dias atuais

Doutor Kelley, o psiquiatra que cuidou dos líderes nazis
Nuremberg não foi escolhida para sediar este acontecimento por conta de sua representatividade junto aos nacional-socialistas tendo sido palco de tantos e tantos comícios megalomaníacos do partido, e sim porque o Palácio da Justiça foi um dos poucos edifícios grandes que sofreram poucos danos com os bombardeios, precisando de poucas reformas.

Os prisioneiros de guerra ficaram presos no complexo penitenciário anexo ao tribunal, de três andares, construído no século XIX, sob responsabilidade do exército americano e do Coronel Andrus e sob os cuidados do psiquiatra, também americano, Dr. Douglas M. Kelley, pois os aliados não queriam saber de suicídios ou alegações de insanidade.

O Dr. Kelley, que aproveitou a oportunidade para estudar a mente nazista, encantou-se com Hermann Göring e sua personalidade marcante. Um dos possíveis sucessores de Hitler no comando nazista foi encontrado morto em sua cela, tendo cometido suicídio cerca de 2 horas antes de sua execução. Nunca se descobriu quem o ajudou nessa empreitada.

O mapa d prisão

As celas

A ração

O passeio
As celas que abrigavam os presos mediam mais ou menos 9x5 m² e eram austeras para que não fossem abrigadas armas que os prisioneiros pudessem usar para tirar a própria vida. Os guardas vigiavam as celas dia e noite, através de postigos quadrados de 0,30 cm, situados na porta de entrada.  

Os criminosos não tinham total privacidade nem quando utilizavam o banheiro, cujo vaso não possuía tampa, onde os pés sempre ficavam visíveis.

Eles tinham o direito de caminhar pelo pátio por 20 minutos diários, sendo obrigatório manter distância uns dos outros de no mínimo 10 metros.

A ração que recebiam, apesar de simples, tinha valor nutricional superior ao da maioria da população alemã naqueles tempos e em todos os outros aspectos muito superior ao alimento que os judeus e prisioneiros de guerra receberam nos últimos anos. Os americanos queriam que eles estivessem bem e saudáveis para enfrentar os julgamentos, que duraram 218 dias e demandaram muitas e muitas horas de trabalho.

Acima: réus e advogados de defesa na sala 600 do tribunal e abaixo, os advogados de defesa em frente ao tribunal
Os réus japoneses

As terríveis experiências médicas realizadas em judeus
A imprensa teve papel fundamental ao divulgar amplamente os acontecimentos, pois era importante não haver dúvidas sobre a justiça de todo o processo. O Castillo Stein (ex Fabber Castell, dos famosos lápis) serviu de alojamento para os jornalistas que reclamavam a todo instante das más condições do local.

Além disso, era necessário convencer a população alemã, enfeitiçada por Hitler e sua propaganda enganosa, dos crimes cometidos.

Após o julgamento dos líderes do NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) o julgamento de outros envolvidos como médicos, que fizeram experiências brutais com judeus, membros do judiciário nazi, banqueiros, ministros e funcionários administrativos, além de membros da SS (Schutzstafelle SA (Sturmapteilungen) foram acontecendo nos anos seguintes.

Houve julgamentos também em Tóquio, com 11 países envolvidos, a saber: Estados Unidos, União Soviética, Filipinas, Índia Britânica, Austrália, China, entre outros. Foi finalizado em 1948 e houve sentenças de morte e prisão perpetua.

A exposição finaliza com uma mostra dos crimes contra a humanidade, que infelizmente continuam acontecendo com grande frequencia. 

Rudolf Hess fala ao tribunal

Ohlendorfs fala ao tribunal

O vídeo que mostra o julgamento e os bancos dos réus

Göring e Hess durante o julgamento
Passei horas mergulhada de corpo e alma no processo de Nuremberg e nos anos de guerra que ele trouxe à tona. O mundo ao meu redor sumiu. O único ruído que eu escutava era o de meu áudio guia.

Os momentos preferidos: os vídeos, pois é sempre cruel ver as imagens. O sorriso quase constante de Göring mostrando desprezo por tudo aquilo e com a certeza de que naquele palco reverteria as opiniões do mundo, desejando demonstrar todo o brilho da Alemanha nazista, entrando ele mesmo para a história, revela sua megalomania.

Os áudios, com as vozes dos criminosos, em alemão, idioma que fizeram questão de usar, mesmo aqueles que falavam inglês, também foram marcantes, memoráveis, inesquecíveis.

Ohlendorf, oficial da SS de alta patente, que cometeu vários assassinatos e atrocidades, friamente narra o aniquilamento e extinção de judeus e comunistas.

Rudolf Hess fala sobre a solução final, o extermínio dos judeus, ideia que surgiria na metade da segunda guerra. O vice-líder do partido nazi, em um ato tresloucado, voou sozinho até a Escócia, em 1941, com o intuito de negociar a paz com o Reino Unido, onde segundo ele, o Império Britânico seria protegido e em contrapartida, não deveria se opor ao interesses alemães. 

Ele salta de para-quedas, é detido e anos mais tarde é enviado a Nuremberg para ser julgado. Durante o julgamento, Hess segue ovacionando Hitler, alegando que cumpriu seu dever como nacional-socialista, colocando-se a serviço do povo alemão, afirmando que não se arrependia de nada.

Fritz Sauckel – diretor do programa de trabalho escravo declarou que conheceu um Führer preocupado com seu povo e muito generoso.

“Meu maior erro talvez tenha sido meu sentimento e excesso de confiança nele, assim como minha grande veneração por Hitler. Eu só o conhecia como o campeão pelos direitos da existência do povo alemão e via o homem que era amável com trabalhadores, mulheres e crianças e que promovia os interesses vitais da Alemanha. Não pude reconhecer o Hitler apresentado nesse tribunal.”

Não há como não sair com a alma ao mesmo tempo pesada por percebermos que o mundo ainda está muito longe da civilidade, porque essa história é nossa, recente, e massacres continuam acontecendo e vejo aqui e acolá fumaças ainda não totalmente apagadas dessa era de terror ministrada pelos nazistas, como também de alma lavada, porque o tribunal reconheceu diante da humanidade que não podemos tolerar nada parecido com o Holocausto.

Fomos em direção à sala 600, para completar nossa visita, mas ela havia sido fechada novamente. Conto esse episódio em outro texto quando todos nós nos refizermos da visita ao Memorial do Processo de Nuremberg.


À caminho do Palácio de Justiça
Para chegar até o Palácio de Justiça é só pegar a linha do metro U1 (linha verde) e descer na estação de Bärenschanze.

Funciona de Quarta a Segunda das 10 AM às 6 PM. Lembrando que a sala 600 está aberta nesses mesmos horários desde que não esteja acontecendo nenhuma sessão ou evento, quando então é fechada ao público sem aviso prévio.

Como nós somos andarilhos urbanos e gostamos de olhar a cidade enquanto caminhamos, fomos até lá utilizando nossos pés como meio de transporte. Foram mais ou menos 45 minutos para ir e mais 45 minutos para voltar desde a königstraße. A cidade neste dia estava um forno. 

domingo, 28 de agosto de 2016

GRAN Hotel, NEUES Museum, Distrito da LUZ VERMELHA, Nuremberg, Alemanha:


Mais um dia que se inicia em Nuremberg e o sol levantou castigando. Estava muito quente. O café da manhã foi o mesmo de quase todos os dias: pretzel ementada (1,90 euros), meu preferido, que comemos caminhando pela rua, enquanto eu e a cidade acordávamos.


Gran Hotel em 1945

Gran Hotel - Le Meridien

Gran Hotel - Le Meridien
A primeira parada do dia foi em frente ao Gran Hotel, destruído durante a Segunda Guerra, sendo um dos primeiros grandes edifícios da cidade a serem restaurados.

Ele teve uma importância histórica muito grande, pois foi nele que os americanos responsáveis pelos Julgamentos de Nuremberg, militares e civis, hospedaram-se durante os meses que passaram na cidade, envolvidos com o julgamento dos líderes nazistas por crimes de guerra.

Antes disso, era no Gran Hotel que os participantes dos comícios nazistas que aconteceram muitas vezes em Nuremberg, ficavam hospedados.

Dizem que durante a noite ele resplandecia em meio à escuridão que tomava conta de Nuremberg, completamente arrasada, desfalecida, pois era o único prédio com luz elétrica.

Apesar da restauração, os hóspedes americanos precisaram conviver com uma estrutura um tanto quanto frágil e falta de segurança, pois havia o receio de um ataque da resistência nazi ou de moradores enfurecidos. Havia um bar, música e boa comida.

Por conta disso, às vezes o lugar parecia uma torre de babel, com muitas nacionalidades e profissões circulando pelo local.

Hoje funciona o hotel Le Meridien, mas em frente a ele, depois de ver imagens de Nuremberg envergada e alquebrada, pude imaginar o oásis que deve ter sido aquele hotel em 45, fervendo de pessoas, com todo o horror daquela guerra vindo à tona, mas ao mesmo tempo, com um novo e importante capítulo da história sendo escrito.


Neues Museum: fachada

Neues Museum

Neues Museum: design

Neues Museum: modernidade

O contraste entre o Neues Museum (Museu Novo) e as muralhas antigas da cidade
Do velho ao novo, fomos até o Neues Museum, inaugurado em 2000, com um design moderno, interessante e cheio de estilo. Carregado de vidro, o prédio não só está repleto de obras de arte, como é uma obra de arte em si mesmo.

O acervo conta com fotografias, esculturas e pinturas do século XX. Eu queria muito ter visitado, mas no final das contas, não tivemos tempo. Desculpa excelente para um dia voltarmos à Nuremberg.

O que mais chamou minha atenção, apreciando a fachada do museu foi o contraste que ele faz com as muralhas antigas da cidade. Eles convivem lado a lado formando um belo e fascinante cenário. 

E a temperatura foi subindo ainda mais ao longo do dia

Frauentormauer
O nosso objetivo nesse dia era visitar o Tribunal de Nuremberg, então seguimos em frente, passando pela Frauentormauer, o Distrito da Luz Vermelha, nos moldes de Amsterdam, Holanda, só que em minha opinião um pouco mais singular, surpreendente.

Talvez pelo inesperado da hora, talvez pela quantidade de moças expostas, talvez pela atitude delas em relação à nossa passagem: umas se expondo mais, outras se escondendo, algumas falavam ao celular, não sei ao certo, mas foram cenas inesperadas para mim, pois achei que o negócio só funcionasse à noite e não esperava ver tantas meninas nas janelas e vitrines.

Seja como for, há avisos indicando o local, proibindo fotos e menores de idade. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

St. SEBALD Kirche, Nuremberg, Alemanha:

St. Sebald Kirche
St. Sebald Kirche
O próximo clássico em nosso caminho foi a St. Sebald Kirche, a igreja mais antiga da cidade, erguida no século XIII. Ela foi ampliada durante uma reforma no século XIV e possui torres góticas, concluídas apenas no século XV.

St. Sebald é o padroeiro da cidade e viveu como ermitão e monge perto de Nuremberg, no século XI realizando muitos milagres na região, segundo as crenças, como, por exemplo, devolveu as vistas para um homem cego.

Ele desejava ser enterrado onde os bois levando o carro funerário segurando seu corpo parassem. Supõe-se que esse é o local exato onde foi erguida a igreja que atrai milhares de peregrinos até hoje.
St. Sebald Kirche por dentro
St. Sebald Kirche: o altar e o epitáfio da família Tucher

St. Sebald Kirche em frente à entrada
Por dentro, ela é tão bonita quantos as outras que nós visitamos na cidade, nos dias pregressos, sendo, entretanto, menos impressionante. Sua nave é estreita, seu teto possui dobras e as colunas tem a parte superior curva.
Aqui está o túmulo de St. Sebald, uma estrutura de bronze feita por Peter Vischer, o velho e o epitáfio da família Tucher feito por Hans von Kulmbach, em 1513.
Pessoas circulavam observando e tirando fotos. Os sons de seus passos ecoavam pelos poros da igreja, assim como seus sussurros e o ruído seco de portas seculares que se abriam e que se fechavam de tempos em tempos, entremeados aqui e acolá pelo silêncio, quando todos paravam ao mesmo tempo, em uma dessas estranhas coincidências.  
Na fachada norte de St. Sebald Kirche ao lado da placa, no chão, que faz referência a Moritz Kapele
"A sua reconstrução é reservada para as gerações futuras"
Na fachada norte da St. Sebald Kirche, estava a Moritz Kapele. Originalmente ela ficava no bairro judeu de Nuremberg e foi citada pela primeira vez em 1313. No bairro de Sebalder remonta já do século seguinte. Ao longo dos anos, entretanto, foi perdendo importância sagrada sendo a capela usada para diversos fins entre eles, armazenamento de grãos e arquivo.

No início do século XX passou por uma grande reforma somente para ser destruída anos mais tarde pelas bombas aliadas na Segunda Guerra Mundial, em 03 de Outubro de 1944, colocando-a abaixo. Nesses anos era uma casa de oração protestante.
Em seu lugar encontramos uma placa com os seguintes dizeres: “A sua reconstrução é reservada para as gerações futuras”. Pode ser que essa geração nunca chegue, mas o que sabemos do futuro, afinal?!
Bratwurst Röslein: só mesmo uma cerveja para aplacar a sede causada pelo calor bávaro.

Bratwurst Röslein: área externa e coberta - duas das três áreas disponíveis no restaurante
Deixamos a igreja por volta de 17 horas: o calor continuava intenso, o sol brilhava e as cervejarias começavam a encher de pessoas sedentas por uma cerveja, assim como nós, que na Alemanha é servida em temperatura ambiente.
Para nosso paladar brasileiro, acostumado a cervejas estupidamente geladas, é um pouco estranho, mas eu que não sou bebedora de cerveja, rapidamente me adaptei e gostei. Escolhemos o restaurante Bratwurst Röslein, que fica na Rathausplatz, para aplacar a sede.
Bratwurst Röslein: na Alemanha como os alemães - sem sapato

Bratwurst Röslein: almoçamos na área que fica no meio da Rathausplatz
Outra coisa interessante que percebi em Nuremberg é que os garçons não são acelerados e não nos importunam. De um modo geral eles só vêm à mesa quando chamamos e não ficam a todo instante perguntando se queremos outra cerveja ou algo para comer. Nesse dia especialmente não tínhamos nenhuma pressa.
Demoramos bastante para pedir o jantar e nos sentimos super à vontade com isso. Observamos outras mesas. Um senhor ao nosso lado levou duas horas para tomar uma caneca de cerveja, sem comer nada e sem ser abordado pelas garçonetes. Um casal do lado oposto levou mais ou menos 3 horas com uma única bebida compartilhada e dois pratos.
Outra coisa engraçada é que muitos deles, clientes alemães, ao sentarem-se à mesa, pedem uma cerveja e tiram o sapato, só voltando a calçá-los quando vão embora. Relaxamento total! 

O inconveniente é que fumam demais e optar por mesas ao ar livre é estar constantemente exposto ao desagradável cheiro do cigarro, mas vale à pena.
Saure Zipfel Sausages e Franconian Snack
Para jantar, eu escolhi um Saure Zipfel Sausages, que eram salsichas de Nuremberg (podemos escolher 6, 8 ou 12 unidades) embebidas em um caldo de cebola, vinho branco e vinagre da Francônia. Acompanhava pão rústico (7,40 euros).
Foi um prato de sabor diferente, incomum para o meu paladar. O pão tinha uma textura meio seca que combinou muito bem com o caldo e as salsichas. Eu gostei bastante.
Léo pediu um Franconian Snack que vinha com embutidos, queijos, pão, manteiga temperada, picles e cebola crua (8,90 euros). Estava muito bom também.
No Bratwurst Röslein havia english menu, o que facilitou e muito nossa vida. Além disso, havia uma garçonete que falava inglês e nos ajudou com algumas dúvidas sobre os pratos. 
À caminho do hotel

Nuremberg vai mudando de cores: às 20 horas e o sol ainda segue acordado

Museumbrucke movimentada
Voltamos para o hotel caminhando, quando já passava bastante das 20 horas, com o sol ainda acordadíssimo. A cidade a essa hora estava movimentada, não só as cervejarias e restaurantes, como também as sorveterias, as praças e ruas. A população estava aproveitando o verão, curtindo o fim do dia, jogando conversa fora. Sem medos. Confesso que esse estilo de vida é artigo de luxo para mim. Objeto de desejo.